Após mudar de posição às vésperas do segundo turno, candidato do PL sinaliza a empresários que redução da jornada poderá sofrer alterações no Congresso caso provoque aumento de custos e prejuízos ao emprego
O candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), anunciou apoio ao fim da escala de trabalho 6×1, mas já admite a possibilidade de rever a medida caso vença a eleição. Em conversas reservadas com empresários, o senador sinalizou que a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas poderá ser submetida a novos ajustes no Congresso, dependendo dos impactos sobre o emprego e a atividade econômica.
A sinalização ocorreu na terça-feira (13), durante encontros com representantes da indústria, do comércio, dos serviços e do agronegócio, em São Paulo. Horas antes, Flávio havia anunciado que votaria favoravelmente à Proposta de Emenda à Constituição (PEC), contrariando o discurso crítico que manteve durante meses.
A mudança acontece a onze dias do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro, e é interpretada por interlocutores políticos como uma tentativa de ampliar o apoio eleitoral sem romper com setores empresariais resistentes à proposta.
Apoio à PEC vem acompanhado de possibilidade de recuo
Nos bastidores da campanha, assessores econômicos do senador avaliam que a redução da jornada, sem diminuição salarial, poderá elevar os custos operacionais e exigir contratações adicionais, sobretudo em empresas que funcionam aos fins de semana.
Diante desse cenário, aliados de Flávio discutem a apresentação de propostas específicas ao Congresso para flexibilizar regras em determinados segmentos econômicos. A possibilidade, entretanto, ainda não foi formalizada e depende de uma eventual vitória eleitoral.
Empresários que conversaram com o candidato reconheceram o peso político da decisão, mas alertaram que o apoio à PEC não elimina os problemas financeiros decorrentes da mudança.
Flávio quer transferir ao governo os custos da redução
Ao anunciar seu voto favorável, o senador defendeu que o governo federal assuma parte das despesas adicionais das empresas com a reorganização das jornadas.
“A gente vai votar a favor do fim da 6 por 1 e quem vai pagar essa conta vai ser o governo, porque os empresários estão sufocados, estão quebrados. O governo é que vai ter que bancar essa compensação, porque, obviamente, quando você reduz a jornada de trabalho, será necessária a contratação de mais pessoas”, declarou.
Flávio, contudo, não explicou como funcionaria essa compensação, quais empresas seriam contempladas ou de onde sairiam os recursos.
Mudança de discurso ocorre na reta final da eleição
Até recentemente, Flávio classificava o fim da escala 6×1 como uma iniciativa eleitoreira do governo Lula e alertava para o risco de desemprego. Seu grupo político defendia uma proposta alternativa do senador Rogério Marinho (PL-RN), que permite maior flexibilização das jornadas e remuneração proporcional às horas trabalhadas.
A reviravolta ocorreu em meio ao avanço da PEC no Senado e à pressão por sua aprovação antes do segundo turno.
Nesta quarta-feira (14), os senadores devem analisar a proposta em primeiro turno. O governo tenta acelerar a tramitação para realizar as duas votações no mesmo dia, mediante autorização do plenário.
Revisão exigiria apoio expressivo do Congresso
Caso a PEC seja aprovada e promulgada, qualquer alteração posterior em suas disposições constitucionais exigirá uma nova votação no Congresso, com apoio mínimo de 308 deputados federais e 49 senadores, em dois turnos em cada Casa.
Por enquanto, a hipótese de revisão permanece restrita às articulações políticas e econômicas da campanha, sem proposta definida.
A posição de Flávio revela o desafio que pretende administrar: defender publicamente uma medida popular entre trabalhadores enquanto mantém aberta a possibilidade de alterar suas regras para atender às preocupações do empresariado.
(Com O GLOBO)




