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Fim da taxação de importados de baixo valor ameaça cadeia têxtil brasileira e promete reconfigurar mercado

Redação
13 de maio de 2026 às 03:55
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Fim da taxação de importados de baixo valor ameaça cadeia têxtil brasileira e promete reconfigurar mercado

Foto: Redação Central

Contexto histórico e decisão governamental

A isenção de impostos sobre importações de mercadorias de até US$ 50, implementada pelo governo federal em abril de 2024, representa uma mudança radical na política de comércio exterior brasileira. Inspirada em modelos internacionais como o de minimis dos Estados Unidos, a medida visa reduzir burocracia e alinhar o Brasil a padrões globais. Até então, a taxação sobre esses produtos — que variava entre 25% e 60% — era justificada como proteção à indústria nacional. No entanto, a decisão ignora os impactos estruturais sobre um setor já fragilizado pela concorrência chinesa e pela crise pós-pandemia.

Impacto imediato no varejo e projeções para 2024

O setor de comércio varejista projetava investimentos de R$ 100 bilhões em 2024, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Contudo, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT) estima que 70% dessas projeções estão em risco. A queda nos preços ao consumidor será imediata: produtos como blusas, calçados e eletrônicos importados devem registrar quedas de até 40% nos próximos meses. Enquanto isso, fabricantes nacionais preparam demissões em massa, especialmente em polos como Americana (SP) e Fortaleza (CE), onde a cadeia têxtil emprega mais de 1,2 milhão de pessoas.

Risco de concorrência desleal e desindustrialização

Entidades como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) classificam a medida como ‘concorrência predatória’. Segundo a FIESP, a isenção beneficia diretamente plataformas chinesas como Shein e AliExpress, que já dominam 30% do mercado de fast fashion no Brasil. ‘Não há competição justa quando uma empresa estrangeira não paga impostos de importação, enquanto uma fábrica brasileira arca com 20% de encargos trabalhistas e 35% de tributos’, argumenta o diretor de Relações Institucionais da FIESP, José Ronaldo de Sousa. A Associação Brasileira de Importadores (ABIMAQ) ainda alerta para o risco de ‘dumping’ em setores como o de eletroeletrônicos.

Resposta das indústrias e apelos por compensações

Em resposta, a ABIT anunciou a criação de um fundo emergencial de R$ 2 bilhões para financiar a modernização de 500 fábricas até 2025. No entanto, a entidade reconhece que os recursos são insuficientes frente à magnitude do problema. O setor também cobra do governo a implementação de barreiras não tarifárias, como exigências de etiquetagem em português e normas técnicas para importados. ‘Medidas como a exigência de certificação de origem para produtos têxteis poderiam equilibrar a balança’, sugere o presidente da ABIT, Fernando Pimentel. Até o momento, o Ministério do Desenvolvimento não se manifestou sobre novas regulamentações.

Cenário macroeconômico e projeções para 2025

Economistas do Banco Central projetam um crescimento de 0,5% no PIB industrial para 2024, com retração de 1,2% no setor têxtil. A perda de empregos, segundo estimativas da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI), pode chegar a 200 mil até 2025. O Banco Mundial, em relatório recente, classificou a medida como ‘um tiro no pé’ para a competitividade brasileira, especialmente em setores intensivos em mão de obra. ‘A China já dominou a manufatura global. Agora, o Brasil corre o risco de perder também a batalha pela inovação’, avalia a economista Ana Luiza Barbosa, da Fundação Getúlio Vargas.

Posicionamento do governo e perspectivas

Em nota oficial, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) defendeu que a isenção ‘estimulará a concorrência e beneficiará o consumidor’. No entanto, o governo não apresentou estudos de impacto sobre o setor industrial. Parlamentares da Frente Parlamentar da Indústria (FPI) já protocolaram um projeto de lei para revogar a medida, argumentando que ela viola o princípio da ‘proteção ao trabalho nacional’, previsto na Constituição. Enquanto isso, o ministro do Desenvolvimento, Fernando Haddad, afirmou que ‘o diálogo está aberto’, mas não detalhou possíveis compensações. A indefinição mantém o setor em estado de alerta.

Conclusão: Um experimento arriscado

A decisão de isentar taxas sobre importados de baixo valor é um experimento econômico sem precedentes no Brasil. Enquanto o consumidor pode comemorar preços mais baixos no curto prazo, o futuro da indústria nacional — especialmente em setores intensivos em mão de obra — pende por um fio. A ausência de políticas compensatórias e a falta de transparência nas negociações deixam o Brasil em um cenário de incerteza, onde a balança entre livre mercado e protecionismo será definida nos próximos meses. O que está em jogo não é apenas o fechamento de fábricas, mas a própria soberania industrial de um país que ainda luta para se consolidar como potência manufatureira.

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