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Etiópia celebra nascimento de quíntuplos após 12 anos de infertilidade: superação e transformação social na região de Amhara

Redação
8 de maio de 2026 às 04:16
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Etiópia celebra nascimento de quíntuplos após 12 anos de infertilidade: superação e transformação social na região de Amhara

Foto: Redação Central

Contexto histórico e cultural da infertilidade na Etiópia

Na Etiópia rural, especialmente na região de Amhara — uma das mais populosas do país —, a infertilidade ainda é um tabu profundamente enraizado na cultura tradicional. Historicamente, a capacidade de gerar filhos é vista como um símbolo de bênção divina e responsabilidade familiar, sobretudo para as mulheres. Estudos antropológicos, como os conduzidos pela Universidade de Addis Abeba, indicam que até 30% das mulheres etíopes em idade reprodutiva enfrentam algum grau de infertilidade, muitas vezes não diagnosticada ou tratada devido à falta de acesso a serviços de saúde especializados. O sofrimento psicológico associado à incapacidade de conceber é agravado por pressões sociais, incluindo comentários de vizinhos, familiares e até líderes comunitários, que frequentemente atribuem a infertilidade a causas sobrenaturais ou falhas morais.

O caso da mãe de quíntuplos: um relato de resiliência

Mulher identificada apenas como Aster — nome fictício para proteger sua identidade — narrou em entrevista exclusiva à ClickNews o drama vivenciado ao longo de 12 anos. “Ele me dizia que ter [o outro filho] era suficiente e que eu não deveria me preocupar, mas por dentro eu sofria — psicologicamente e emocionalmente — enquanto toda a aldeia questionava minha incapacidade de dar à luz”, declarou. O marido, segundo Aster, inicialmente minimizou sua angústia, mas a situação se agravou quando a família expandida passou a sugerir que ela buscasse um segundo casamento ou aceitasse a poligamia como solução. “Muitas mulheres na aldeia enfrentam isso. Algumas são abandonadas; outras são obrigadas a aceitar casamentos polígamos, mesmo contra sua vontade”, explicou. O nascimento dos quíntuplos, registrado em junho de 2023 no Hospital Regional de Bahir Dar, não apenas aliviou seu fardo pessoal, mas também desafiou crenças locais, que há muito associavam a infertilidade a uma suposta “maldição”.

Desafios do sistema de saúde etíope no tratamento da infertilidade

O Hospital Regional de Bahir Dar, onde Aster realizou seu tratamento, é um dos poucos na região com equipamentos para diagnóstico de infertilidade, como ultrassonografia transvaginal e exames hormonais. No entanto, especialistas da Sociedade Etíope de Medicina Reprodutiva (ESRM) alertam para a falta de recursos. “A maioria das pacientes chega tarde ao tratamento, muitas vezes após anos de sofrimento silencioso. Além disso, os custos dos medicamentos — como citrato de clomifeno ou gonadotrofinas — são proibitivos para famílias de baixa renda”, afirmou o Dr. Yohannes Gebreselassie, ginecologista e coordenador de um programa piloto de saúde reprodutiva na região. Segundo dados do Ministério da Saúde da Etiópia, apenas 5% das mulheres etíopes têm acesso a serviços de fertilidade, enquanto a média continental africana é de 12%. A situação é ainda mais crítica em áreas rurais, onde a distância até os centros urbanos e a escassez de profissionais treinados agravam o problema.

Impacto social e mudanças de paradigma

O nascimento dos quíntuplos em Amhara não passou despercebido. Líderes comunitários e religiosos locais, tradicionalmente céticos em relação à medicina moderna, passaram a reconhecer a importância do acompanhamento médico. “Antes, muitos acreditavam que a infertilidade era obra do diabo ou de feitiçarias. Hoje, até os mais velhos da aldeia pedem informações sobre clínicas”, contou Aster. O caso também ganhou repercussão nacional, com reportagens em veículos como a Ethiopian Broadcasting Corporation (EBC) e apelos por maior investimento em saúde reprodutiva. Aster, agora mãe de sete filhos — incluindo os quíntuplos — tornou-se uma espécie de símbolo de esperança. “Muitas mulheres me escrevem pedindo ajuda. Elas dizem que se sentem como eu me senti: sozinhas e envergonhadas. Mas agora sabem que não estão sozinhas”, disse.

Perspectivas globais: infertilidade na África Subsaariana

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a África Subsaariana tem uma das maiores taxas de infertilidade do mundo, com prevalência estimada em 15-20% da população em idade reprodutiva. Fatores como doenças sexualmente transmissíveis não tratadas, complicações pós-parto e falta de acesso a cuidados pré-natais contribuem para esse cenário. Além disso, a epidemia de HIV/AIDS nas décadas de 1990 e 2000 deixou sequelas reprodutivas em milhares de mulheres. “A infertilidade na África é um problema de saúde pública negligenciado. Enquanto países como a África do Sul e o Quênia avançam em políticas de saúde reprodutiva, nações como a Etiópia ainda lutam para integrar esses serviços aos sistemas públicos”, destacou a Dra. Ngozi Erondu, pesquisadora do Imperial College London e especialista em saúde global.

O futuro: avanços e esperança

Projetos como o “Fertility Care Ethiopia”, financiado pela USAID, têm buscado capacitar profissionais de saúde e conscientizar comunidades sobre a infertilidade. Aster, que agora faz parte de um grupo de apoio a mulheres com dificuldades reprodutivas, vê o futuro com otimismo. “Meus filhos são minha vitória, mas quero que outras mulheres não passem pelo que passei. Por isso, falo abertamente sobre meu caso”, afirmou. Enquanto isso, o governo etíope anunciou recentemente a expansão de 20 novos centros de saúde reprodutiva até 2025, uma medida que, segundo analistas, poderia reduzir em até 40% os casos de infertilidade não tratada na região.

Conclusão: um marco para a saúde e a sociedade

O nascimento dos quíntuplos em Amhara transcende a esfera pessoal. Representa uma mudança lenta, mas necessária, nas percepções culturais e na política pública etíope. Enquanto Aster e outras mulheres lutam para redefinir o estigma em torno da infertilidade, o caso serve como lembrete do poder da resiliência humana e da importância de sistemas de saúde inclusivos. Para especialistas, entretanto, o desafio persiste: transformar casos excepcionais como este em políticas duradouras que beneficiem milhões de mulheres em todo o continente.

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