O tabagismo continua sendo uma das principais causas evitáveis de doença e morte prematura
Embora a associação entre cigarros e câncer de pulmão seja amplamente reconhecida, os danos ao coração e aos vasos sanguíneos recebem menos atenção. Um estudo publicado na revista BMJ Open, com entrevistas em 46 países, identificou uma lacuna relevante: mais de nove em cada dez participantes sabiam que fumar pode causar câncer de pulmão, mas a percepção sobre infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e outros problemas cardiovasculares era consideravelmente menor.
Impacto direto no sistema cardiovascular
A fumaça do cigarro contém nicotina, monóxido de carbono e múltiplos compostos oxidantes que afetam diretamente o sistema cardiovascular. Essas substâncias podem reduzir a disponibilidade de oxigênio, aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial, além de provocar estresse oxidativo e lesão no endotélio, camada interna dos vasos responsável por regular seu funcionamento.
O processo também estimula resposta inflamatória e favorece a formação de placas de gordura nas artérias, condição conhecida como aterosclerose. Quando uma placa se rompe ou quando um coágulo obstrui uma artéria coronária, ocorre o infarto. Nas artérias que irrigam o cérebro, bloqueios semelhantes podem causar AVC isquêmico; o tabagismo também está associado a maior risco de sangramentos.
Fumo passivo também representa risco
Pessoas que não fumam, mas respiram a fumaça liberada por cigarros, charutos ou cachimbos, também ficam expostas às mesmas substâncias nocivas. A conscientização sobre esse risco foi ainda mais baixa entre os entrevistados do estudo, apesar de evidências consolidadas de que o fumo passivo contribui para doenças cardíacas e cerebrovasculares.
Ambientes fechados podem concentrar poluentes, e a ventilação não elimina integralmente a exposição. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com enfermidades respiratórias ou cardiovasculares podem ser particularmente vulneráveis. Reduzir o problema exige ambientes livres de fumo e políticas públicas que limitem a circulação da fumaça em espaços compartilhados.
Conhecimento é parte da prevenção
Para os autores, a desigualdade entre o conhecimento sobre câncer e a compreensão dos efeitos cardiovasculares indica que campanhas preventivas ainda podem comunicar melhor a extensão dos danos causados pelo tabaco. Informações claras sobre infarto, AVC e exposição involuntária tendem a ajudar fumantes e não fumantes a avaliar os riscos com maior precisão.
Especialistas recomendam que quem fuma receba orientação clínica e apoio para interromper o consumo, pois benefícios circulatórios começam ainda nas primeiras horas após a última tragada e aumentam com o tempo. A decisão deve ser acompanhada por profissionais de saúde, especialmente em casos de doença cardiovascular, uso de medicamentos ou sintomas de abstinência.
Alternativas incluem aconselhamento comportamental, terapias de reposição de nicotina e medicamentos prescritos, conforme avaliação individual. A medida não deve ser apresentada apenas como benefício pulmonar; a redução do risco cardiovascular constitui argumento central, sobretudo porque doenças cardíacas e cerebrovasculares respondem por parcela relevante dos agravos associados ao tabaco. Quem convive com fumante também deve ser incluído nas orientações, pois mudanças no domicílio e no ambiente de trabalho reduzem a exposição e podem fortalecer a adesão à cessação.




