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Entre o Rio e o Asfalto – Por Wilton Emiliano Pinto

Jeverson
27 de maio de 2026 às 12:57
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Entre o Rio e o Asfalto – Por Wilton Emiliano Pinto
Divulgação / ClickNews

O rio corria manso naquela manhã.

Não havia ansiedade na água.
Ela simplesmente seguia, contornando pedras antigas, beijando raízes expostas, refletindo pedaços do céu entre sombras verdes.

Parecia conhecer o caminho desde antes dos homens abrirem estradas ou inventarem relógios.

Sentei-me na sombra úmida da mata, ouvindo aquele silêncio vivo que só existe nas beiras de rio.

Um silêncio que não é ausência de som, mas presença de vida:

o vento atravessando as copas altas, o chamado distante de um pássaro escondido, o zumbido invisível dos insetos, o estalo de um galho seco cedendo lentamente ao tempo.

Ali, tudo respirava devagar.

A floresta não tinha pressa de ser floresta.
O rio não tinha pressa de chegar ao mar.
E talvez por isso aquele lugar transmitisse uma paz que o ser humano desaprendeu de sentir.

Foi então que meus olhos encontraram um ipê.

Não havia flores. Nenhuma daquelas labaredas amarelas capazes de incendiar o cerrado inteiro.

Restavam apenas vagens secas penduradas nos galhos, maduras, prontas para se abrirem ao primeiro vento mais forte.

O chão estava coberto de sementes.

Pequenas.
Leves.
Quase transparentes.

Peguei uma delas na palma da mão e fiquei olhando demoradamente.

Impressionava pensar que algo tão frágil carregasse escondida a possibilidade de uma árvore inteira, sombra, flores, ninhos, abrigo, futuro.

Na natureza, quase tudo começa pequeno e silencioso.

Continuei caminhando pela mata.

Mais adiante, perto de uma curva do rio, encontrei um gigante.

Um velho jequitibá.

O tronco largo parecia guardar séculos dentro da madeira.

As raízes profundas abraçavam a terra como mãos antigas segurando memórias.

Havia naquela árvore uma espécie de dignidade silenciosa, como certos seres humanos que envelhecem sem endurecer o coração.

Procurei sementes pelo chão.

Nada.

Olhei para o alto. Só depois de muito procurar consegui enxergar, perdida entre os galhos mais altos, uma única cápsula escura.

Uma apenas.

Naquele instante, a mata começou a falar comigo sem usar palavras.

O ipê parecia confiar no vento.
Espalhava milhares de sementes como quem distribui esperança sem escolher destino.

O jequitibá parecia confiar no tempo.
Produzia pouco. Devagar. Sem urgência.

Como quem entende que certas grandezas não nascem da pressa, mas da permanência.

E os dois estavam certos.

A própria floresta parecia construída sobre diferenças harmoniosas.

A paineira lançando sementes envoltas em plumas leves.
O jatobá crescendo lentamente até virar madeira quase eterna.

O bambu permanecendo invisível durante anos antes de disparar em direção ao céu.

A araucária alternando fartura e silêncio conforme as estações.

Nenhuma árvore tentava ser outra.

Nenhuma parecia viver atormentada pela comparação.

Talvez porque a natureza já tenha compreendido uma verdade que o homem ainda custa a aceitar:

não existe um único jeito de florescer.

Há vidas feitas para o voo.
Outras, para a profundidade.

Há existências que chegam espalhando cores.
E há aquelas que transformam o mundo apenas permanecendo firmes.

Horas depois, deixei o rio para trás e voltei para a cidade.

E foi estranho.

O silêncio da mata ainda caminhava dentro de mim quando entrei numa avenida movimentada.

Carros passavam rápidos.

Motocicletas riscavam o trânsito.

Pessoas atravessavam as ruas olhando telas, quase nunca o céu.

Mas havia árvores no canteiro central.

E talvez por causa daquela manhã à beira do rio, comecei a enxergá-las de outro modo.

Um ipê deixava vagens secas caírem sobre o asfalto quente.

Mais adiante, uma mangueira sustentava poucos frutos pesados entre fumaça e fios elétricos.

Perto do semáforo, uma paineira espalhava pequenos flocos brancos que dançavam entre buzinas e poeira.

Foi então que compreendi:

a cidade também é uma floresta.

Só muda o barulho.

Ali também existem pessoas-ipê.

Gente que espalha afeto, palavras, risos, ideias e esperança por onde passa, como sementes carregadas pelo vento.

E existem pessoas-jequitibá.

Quietas. Profundas. Daquelas que quase ninguém percebe, mas sustentam famílias inteiras sem precisar aparecer.

Há pessoas que florescem cedo.
Outras passam décadas criando raízes invisíveis.

Há quem viva como vento.
E há quem viva como montanha.

O sofrimento começa quando passamos a medir todas pela mesma régua.

A natureza não faz isso.

O rio não exige velocidade da árvore.
O jequitibá não inveja o ipê.
A paineira não lamenta não produzir frutos como a mangueira.

Cada ser apenas cumpre seu papel na imensa tarefa de continuar a vida.

Enquanto o sinal permanecia fechado e os carros aguardavam diante de mim, fiquei observando sementes espalhadas no pequeno canteiro da avenida.

Pequenas.
Anônimas.
Quase invisíveis no meio do concreto.

E senti uma paz difícil de explicar.

Porque entendi que talvez nós também sejamos assim:

sementes caminhando entre o tempo e o acaso, carregando dentro de nós destinos que não precisam ser apressados.

Algumas nasceram para voar longe.
Outras, para criar raízes profundas.

Mas todas, de algum modo, continuam tentando florescer.

Wilton escreve lembrando que, entre o rio e o asfalto, tudo concorre para florescer.
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