Fenômeno climático tem 82% de chance de ocorrer e impactar frutas, carnes e laticínios
Prognóstico climático aponta riscos
De acordo com o mais recente relatório da NOAA, agência norte-americana responsável pelo monitoramento das águas do Pacífico equatorial, há 82% de probabilidade de o fenômeno El Niño se consolidar no segundo semestre de 2026 e se estender até o fim do ano. Caso se confirme, os efeitos devem ser sentidos diretamente pelo consumidor brasileiro, com alta nos preços de frutas, legumes, hortaliças, carnes e laticínios.
Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Embrapa alertam para impactos concretos sobre diferentes regiões agrícolas do país, reforçando que o fenômeno altera o regime de chuvas e pode provocar tanto secas quanto excesso de precipitação.
Incerteza sobre intensidade
Apesar da elevada probabilidade de ocorrência, especialistas ainda não conseguem determinar a força do fenômeno. O meteorologista Gilvan Sampaio, pesquisador do INPE, explica que o período de transição reduz a confiabilidade dos modelos climáticos.
“É prematuro falar qualquer coisa em relação à intensidade do El Niño somente observando a temperatura da massa de água do oceano, especialmente agora, durante a estação de transição”, afirma Sampaio. Segundo ele, a partir de junho os modelos ganharão precisão, permitindo traçar cenários mais claros.
Para que o El Niño seja oficialmente caracterizado, é necessário que as temperaturas da água se mantenham acima de 0,5°C por vários meses, acompanhadas de alterações atmosféricas, como o enfraquecimento dos ventos alísios na Linha do Equador.
Impactos regionais na agricultura
Os efeitos variam conforme a região:
- Sul do Brasil: aumento das chuvas na primavera, com risco para lavouras de trigo em pré-colheita, mas favorecendo culturas de verão como soja e milho.
- Norte e Nordeste: tendência de secas no leste e norte da Amazônia e no norte do Nordeste, comprometendo a produção agrícola e o abastecimento regional.
- Centro-Oeste e Sudeste: ondas de calor e chuvas irregulares podem afetar culturas estratégicas como café e cana-de-açúcar.
O pesquisador João Leonardo Pires, da Embrapa Trigo, relembra que em 2023 muitos produtores gaúchos tiveram prejuízos ao investir acima do recomendado. “Uma safra de risco exige investimento moderado, com o uso de conhecimento agronômico aplicado à lavoura para reduzir perdas”, aconselha.
Da lavoura ao consumidor
O impacto do El Niño chega às prateleiras por meio da pecuária e da produção agrícola. Pastagens secas no Centro-Oeste e Sudeste elevam os custos de suplementação do rebanho, pressionando os preços da carne e do leite. Já nas regiões produtoras de hortifrutigranjeiros, a irregularidade das chuvas ou a seca reduzem a oferta, ampliando a volatilidade dos preços.
Historicamente, anos de El Niño registram inflação alimentar mais elevada, independentemente da intensidade do fenômeno.
Mudança climática como pano de fundo
Sampaio ressalta que o El Niño deve ser analisado dentro de um contexto mais amplo de aquecimento global. “O El Niño potencializa os eventos extremos provocados pelo aquecimento global”, afirma o pesquisador do INPE. “Independentemente de ter El Niño ou não, estamos vendo os extremos aumentando a frequência em toda a região tropical.”
O pesquisador Gilberto Cunha, da Embrapa, acrescenta que o fenômeno pode persistir por mais de um ano, ampliando os riscos para a agricultura e para os preços dos alimentos além do segundo semestre de 2026.




