A cotação do dólar ante o real atingiu um patamar simbólico nesta sexta-feira (22), com o fechamento em R$ 5,02 — alta de 0,54% em relação ao dia anterior. O movimento, embora moderado, refletiu um ambiente de maior aversão ao risco tanto no exterior quanto internamente, com o mercado ainda digerindo os desdobramentos de dois fatores-chave: a ata hawkish do Federal Reserve (Fed) e a instabilidade política no Brasil.
O Fed sinaliza ciclo de juros mais longo, e o dólar responde
O principal vetor de pressão sobre a moeda americana veio dos Estados Unidos. A ata da última reunião do Fed, divulgada na manhã desta sexta, revelou que os dirigentes do banco central norte-americano consideram necessário manter a política monetária restritiva por mais tempo do que o inicialmente previsto. O tom agressivo do documento — classificado como hawkish — reforçou as expectativas de que a taxa de juros nos EUA permanecerá elevada mesmo após o encerramento do ciclo de aperto atual.
“A possibilidade de redução do diferencial de juros entre os países pode influenciar o fluxo de capitais e a dinâmica de entrada de divisas no mercado doméstico”, declarou Rafael Pastorello, portfolio manager do Banco Sofisa. Segundo ele, a manutenção de juros altos nos EUA tende a atrair investidores para títulos norte-americanos, reduzindo a demanda por ativos emergentes, como os brasileiros. Esse movimento, em tese, pressionaria o real e valorizaria o dólar.
Política interna: Lula perde fôlego nas pesquisas, e o câmbio sente o impacto
No front doméstico, o noticiário político também contribuiu para a volatilidade do câmbio. Um levantamento da Datafolha, divulgado na manhã desta sexta, revelou que as intenções de voto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) haviam superado as de Flávio Bolsonaro (PL) — uma inversão em relação a pesquisas anteriores. No entanto, o cenário rapidamente se complicou após o The Intercept revelar gravações que sugerem uma relação próxima entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de irregularidades em operações financeiras.
“O dólar permaneceu relativamente estável ao longo da semana, mesmo diante das incertezas políticas e do cenário internacional mais turbulento, o que pode abrir espaço para novas alocações nos próximos dias”, avaliou Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital. Para Pletes, a estabilidade relativa do câmbio nos últimos pregões indica que os investidores ainda buscam referências para posicionamentos mais agressivos, mas a combinação de riscos — externos e internos — mantém o viés de alta da moeda americana.
A semana que se encerra: entre a cautela e as oportunidades
Apesar da alta pontual do dólar nesta sexta, o movimento não foi suficiente para reverter a tendência de estabilidade observada ao longo da semana. O índice DXY, que mede a força do dólar frente a uma cesta de moedas fortes, encerrou o dia em leve alta de 0,03%, aos 99,286 pontos. No acumulado da semana, a moeda norte-americana registrou variação negativa de 0,2%, mas o patamar acima de R$ 5 serve como um alerta para agentes que monitoram a saúde fiscal e política do Brasil.
Analistas ouvidos pela ClickNews destacam que, embora o cenário externo — com juros altos nos EUA e incertezas geopolíticas — seja um fator preponderante, a dinâmica interna também ganha peso. A proximidade das eleições municipais de 2024 e os desdobramentos das investigações envolvendo figuras políticas tendem a manter o real sob pressão nos próximos meses.
“O mercado está em modo de espera, mas qualquer novo ruído político ou sinal de enfraquecimento da política monetária brasileira pode acelerar a fuga de capitais”, ponderou Pastorello. Para ele, a manutenção do teto de gastos e a credibilidade das instituições serão determinantes para evitar uma escalada ainda maior do câmbio.
O que esperar para a próxima semana?
Com o calendário econômico global relativamente vazio — sem divulgações significativas de indicadores nos EUA ou na Zona do Euro — o foco do mercado deve permanecer no Brasil. A agenda política, com possíveis desdobramentos nas investigações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, e os sinais do Banco Central sobre a política monetária doméstica serão os principais catalisadores para o câmbio.
“Se a ata do Fed já deixou claro que os juros nos EUA vão demorar para ceder, o Brasil precisa mostrar que tem condições de oferecer atratividade mesmo em um ambiente adverso”, concluiu Pletes. A semana que se inicia será, portanto, um teste de resistência para o real — e para a capacidade do governo de manter a estabilidade em meio a ventos contrários.




