O continente europeu enfrenta uma crise silenciosa, mas alarmante: as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) sífilis e gonorreia atingiram recordes históricos em 2023, segundo dados divulgados nesta semana pela European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC). O relatório, que analisa casos notificados em 29 países, revela um crescimento exponencial em comparação aos anos anteriores, com implicações diretas para a saúde pública e a capacidade dos sistemas de saúde.
O que os números revelam sobre a escalada das DSTs
O ECDC registrou um aumento de 78% nos casos de sífilis e 38% nos de gonorreia entre 2020 e 2022, com tendência de alta nos dados preliminares de 2023. Em números absolutos, foram mais de 400 mil casos de sífilis e 200 mil de gonorreia reportados no ano passado — patamares não vistos desde a década de 1950. Bruno Ciancio, chefe da unidade de Doenças de Transmissão Direta e Vacinas da ECDC, destaca que “esses patógenos não são apenas desconfortáveis, mas potencialmente devastadores”.
As consequências além da infecção: um alerta para a saúde reprodutiva
As DSTs em questão não se limitam a sintomas superficiais. A sífilis, se não tratada, pode evoluir para estágios avançados, causando danos neurológicos irreversíveis, como a neurosífilis, ou comprometer o sistema cardiovascular, levando a aneurismas e insuficiência cardíaca. Já a gonorreia, além de provocar infertilidade em homens e mulheres, está associada a quadros de dores pélvicas crônicas e complicações durante a gestação, incluindo partos prematuros e natimortos.
“O custo humano e econômico desses surtos é imenso”, afirmou Ciancio. “Além do sofrimento individual, os tratamentos de longo prazo e as sequelas geram uma pressão adicional sobre os sistemas de saúde, já sobrecarregados por outras demandas, como a resistência antimicrobiana — um agravante crítico no caso da gonorreia, que já apresenta cepas resistentes a múltiplos antibióticos.”
Por que a Europa está vivendo este cenário?
Os especialistas apontam múltiplos fatores para o surto. Entre eles, destacam-se:
- Redução no uso de preservativos: Estudos indicam uma queda de 20% na utilização de métodos de barreira entre jovens adultos desde 2020, impulsionada por campanhas de promoção da saúde mental durante a pandemia e pela crença equivocada de que as DSTs são “controláveis”.
- Falta de acesso a diagnósticos e tratamentos: Em países como a Hungria e a Polônia, a redução de recursos para programas de testagem e rastreamento de contatos contribuiu para a subnotificação de casos, mas também para a disseminação silenciosa dos patógenos.
- Migração e turismo sexual: A livre circulação na União Europeia facilitou o deslocamento de pessoas infectadas, enquanto o crescimento do turismo sexual em cidades como Berlim e Amsterdã criou bolsões de transmissão acelerada.
A ECDC, contudo, ressalta que o problema não é exclusivo da Europa. Nos Estados Unidos, os casos de sífilis congênita (transmitida de mãe para filho) aumentaram 183% entre 2012 e 2022, segundo os Centers for Disease Control and Prevention (CDC). No Brasil, o Ministério da Saúde registrou um crescimento de 114% nos casos de sífilis entre 2017 e 2021, com projeções semelhantes para a gonorreia.
O papel da resistência antimicrobiana: um tique-taque biológico
Outro fator agravante é a crescente resistência da Neisseria gonorrhoeae aos antibióticos. Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a gonorreia como uma “ameaça crítica“, alertando que, em breve, poderá não haver tratamento disponível. “Já tivemos relatos de pacientes na Espanha e na Grécia cujos casos não responderam à ceftriaxona, o antibiótico de última geração”, declarou Ciancio. “Isso nos aproxima de um cenário de pandemia de DSTs sem cura.”
Respostas em andamento: o que está sendo feito?
Para conter a crise, a ECDC recomenda uma série de medidas urgentes:
- Campanhas de conscientização direcionadas: Enfoque em grupos de maior risco, como homens que fazem sexo com homens (HSH), profissionais do sexo e jovens adultos, com linguagem clara sobre os riscos da não utilização de preservativos.
- Testagem gratuita e anônima: Ampliação de pontos de testagem em clínicas públicas, universidades e locais de alta circulação, como boates e festas.
- Rastreamento de contatos: Uso de aplicativos e bancos de dados para identificar pessoas expostas e interromper cadeias de transmissão.
- Pesquisa em novos tratamentos: Investimento em vacinas e alternativas terapêuticas, como a combinação de antibióticos ou terapias imunológicas.
Alguns países já começaram a agir. A França, por exemplo, anunciou a distribuição gratuita de preservativos em farmácias e a realização de testes rápidos em farmácias a partir de 2024. Na Alemanha, o governo federal destinou 15 milhões de euros para um programa de testagem em prisões e abrigos para migrantes, grupos vulneráveis à transmissão.
Um chamado à ação: a sociedade não pode fechar os olhos
O surto de sífilis e gonorreia na Europa não é apenas um problema de saúde pública — é um sintoma de uma sociedade que normalizou o risco. A crença de que “isso não vai acontecer comigo” ou de que as DSTs são “controláveis” com um ciclo de antibióticos é perigosa e obsoleta. “As doenças não escolhem vítimas. Elas escolhem oportunidades“, alerta Ciancio. “E hoje, essas oportunidades são inúmeras.”
Para os leitores, a mensagem é clara: a prevenção ainda é a melhor ferramenta. Além do uso consistente de preservativos, é fundamental que os sintomas — como feridas genitais, corrimentos ou dores durante a relação — sejam investigados sem demora. O tratamento precoce não só evita complicações graves, como reduz o risco de transmissão.




