O palco do Theatro São Pedro, em São Paulo, foi o cenário inaugural da turnê comemorativa dos 50 anos de carreira de Djavan, um dos mais influentes nomes da música brasileira contemporânea
Com a voz ainda potente e a presença cênica marcada pela elegância que se tornou sua marca registrada, o artista relembrou, em entrevista exclusiva à ClickNews, os caminhos que o levaram a se tornar um ícone nacional e internacional. “A música sempre foi um ato de amor, mas também de resistência”, declarou, enquanto folheava anotações antigas de letras e melodias compostas ao longo das décadas.
A África como berço cultural e musical
Nascido em Maceió, no estado de Alagoas, Djavan sempre manteve uma conexão visceral com a cultura africana, herança que transborda em sua obra. “Minha música é um diálogo constante com as raízes africanas, seja na batida do samba-canção, no fado português ou nas harmonias que buscam inspiração nos tambores ancestrais”, explicou. Ele destacou ainda a importância da diáspora africana na formação da identidade brasileira, citando nomes como Dorival Caymmi e Cartola como referências fundamentais. “A África não é apenas um continente distante; ela pulsa dentro de cada acorde que componho”, afirmou.
Futebol, paixão paralela que moldou o caráter
Embora a música tenha sido sua principal linguagem, Djavan revelou que o futebol ocupou um espaço central em sua vida, especialmente durante a juventude. “Joguei no CSA [Clube de Regatas do Sportivo Alagoano] quando era menino. O esporte me ensinou disciplina, trabalho em equipe e a lidar com a frustração”, contou. Ele comparou a criação de uma canção à estratégia de uma partida: “Ambos exigem criatividade, mas também precisam de estrutura. Uma música sem base é como um time sem defesa”. A paixão pelo esporte, inclusive, inspirou letras como a de ‘Faltando um Coração’, composta em homenagem ao seu time do coração.
O amor materno como alicerce da vida e da arte
Quando questionado sobre o que considera sua maior conquista, Djavan não hesitou: “Minha mãe, Dona Santa, foi a pessoa que me ensinou tudo. Ela não apenas me criou, mas me mostrou o valor da humildade e da perseverança”. Ele recordou os momentos difíceis da infância em Alagoas, onde a mãe, uma costureira, trabalhava incansavelmente para sustentar a família. “Ela cantava enquanto costurava, e essas melodias se tornaram a trilha sonora da minha vida”, disse, com a voz embargada. A homenagem à mãe já havia sido materializada na canção ‘Mãe’, um dos maiores sucessos de sua carreira, lançada em 1984. “Todo artista carrega dentro de si as vozes daqueles que ama. No meu caso, é a voz dela que ainda ecoa em cada nota que canto”.
Meio século de carreira: desafios e reinvenções
Comemorar cinco décadas no cenário musical não é tarefa simples, sobretudo em um mercado cada vez mais volátil e dominado por tendências efêmeras. Djavan, no entanto, encara a trajetória com serenidade e um certo ceticismo quanto às modas passageiras. “A música boa não envelhece. Ela pode ser redescoberta por novas gerações, mas sua essência permanece”, afirmou. Ele citou como exemplo o recente sucesso de ‘Oceano’, regravada por artistas como Anitta e Ivete Sangalo, que levou sua música a públicos mais jovens. “Isso me faz acreditar que o legado não se constrói em um dia, mas em décadas de trabalho consistente”.
A turnê comemorativa e os próximos passos
A turnê que teve início em São Paulo prossegue com datas no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, antes de se expandir para outras cidades brasileiras e, possivelmente, internacionais. Djavan adiantou que o repertório incluirá não apenas seus clássicos, mas também canções inéditas, ainda em fase de finalização. “Estou em um processo de criação constante. A música nunca para de me surpreender”, revelou. Sobre os planos para o futuro, ele brincou: “Ainda não penso em aposentadoria. Talvez quando completar 100 anos, quem sabe? Por enquanto, tenho canções para compor e shows para fazer”.
Legado e impacto cultural: um olhar para além da música
Além de sua contribuição inegável para a música brasileira, Djavan é reconhecido por seu ativismo cultural e por promover a diversidade artística. Em 2020, ele foi homenageado com o Prêmio Governador do Estado de São Paulo por sua trajetória, e em 2023, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Alagoas. “Minha arte sempre buscou transcender o entretenimento. Ela é um ato político, uma forma de resistência contra o apagamento das nossas raízes”, declarou. Ao ser questionado sobre o estado atual da cultura brasileira, ele foi taxativo: “Precisamos valorizar mais nossos artistas locais. O Brasil tem uma riqueza cultural inigualável, mas muitas vezes ela é sufocada pela indústria globalizada”.
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