Estudo com brasileiros diagnosticados aponta que problemas relacionados ao dinheiro superam questões profissionais, familiares e de saúde como principal gatilho emocional
As dificuldades financeiras despontam como o principal fator associado ao surgimento de transtornos mentais entre brasileiros diagnosticados com ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de Burnout. É o que revela uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN), em parceria com o Instituto Axxus, que identificou os problemas relacionados ao dinheiro como o principal gatilho para 34,6% dos entrevistados.
O levantamento evidencia que as preocupações financeiras ultrapassam fatores tradicionalmente ligados ao adoecimento psicológico, como ambiente de trabalho, relacionamentos e problemas de saúde, reforçando a influência da instabilidade econômica sobre o bem-estar emocional.
Questões financeiras aparecem à frente de outros fatores
De acordo com os dados da pesquisa, as dificuldades econômicas ocuparam a primeira posição entre os fatores apontados pelos participantes como responsáveis pelo início dos transtornos mentais. Em seguida aparecem os problemas ligados ao trabalho, mencionados por 20,5% dos entrevistados.
Na sequência do levantamento estão os conflitos nos relacionamentos, citados por 11% dos participantes, a separação, com 10,9%, doenças, com 8,3%, e situações de luto, responsáveis por 5% das respostas.
O estudo ouviu mil brasileiros, distribuídos por todas as regiões do país, que possuem diagnóstico formal de ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de Burnout. As entrevistas foram realizadas presencialmente e conduzidas por psicólogos especializados, utilizando metodologia de aprofundamento para compreender os fatores associados ao adoecimento.
Dinheiro teve influência no adoecimento para mais de 80% da amostra
Além de aparecerem como principal gatilho individual, as dificuldades financeiras estiveram presentes, em diferentes níveis, no desenvolvimento ou agravamento dos transtornos mentais para 81,9% dos participantes.
Entre esse grupo, 27,1% afirmaram que os problemas financeiros foram a única causa do adoecimento psicológico. Outros 32,4% classificaram o dinheiro como o fator predominante, embora associado a outras circunstâncias. Já 22,4% disseram que as questões financeiras figuraram entre os principais elementos que contribuíram para o agravamento da saúde mental.
Os resultados demonstram que a situação econômica exerce influência significativa sobre o equilíbrio emocional da maior parte dos entrevistados.
Endividamento e dificuldade para pagar despesas agravam cenário
A pesquisa também identificou um quadro de fragilidade financeira entre os participantes. Quase sete em cada dez entrevistados, o equivalente a 69,4%, relataram enfrentar dificuldades para quitar despesas básicas.
Além disso, 61,2% informaram possuir dívidas, enquanto 53,6% afirmaram que a renda mensal não é suficiente para atender às necessidades do cotidiano. O desemprego também aparece entre os principais desafios financeiros, sendo mencionado por 31,1% dos entrevistados.
Esse conjunto de indicadores reforça a relação entre insegurança financeira e sofrimento psicológico observada ao longo do estudo.
Especialista destaca relação entre saúde financeira e bem-estar emocional
Para o presidente da ABEFIN, Reinaldo Domingos, os resultados evidenciam que os impactos das dificuldades econômicas ultrapassam a esfera financeira e atingem diretamente a saúde emocional da população.
“A pesquisa mostra que a saúde financeira e a saúde mental estão profundamente conectadas. Quando uma pessoa vive sob pressão constante para pagar contas, lidar com dívidas, enfrentar a falta de recursos ou a insegurança sobre o futuro, isso inevitavelmente produz impactos emocionais. O que os dados revelam é que o dinheiro deixou de ser apenas uma questão econômica e passou a ocupar um papel central na qualidade de vida e no bem-estar das pessoas”, diz.
Expectativa financeira permanece negativa para a maioria
Embora 35,9% dos participantes demonstrem otimismo em relação à melhora da própria saúde mental, apenas 20% acreditam que sua situação financeira apresentará evolução positiva nos próximos anos.
Em sentido oposto, 67,2% declararam estar pessimistas ou muito pessimistas quanto ao futuro econômico, indicando que as preocupações financeiras permanecem presentes mesmo entre aqueles que acreditam em uma recuperação emocional.
Outro dado levantado pela pesquisa mostra que 48,5% dos entrevistados jamais buscaram orientação especializada em educação financeira, apesar das dificuldades enfrentadas.
Segundo Reinaldo Domingos, enfrentar esse cenário exige atuação conjunta de diferentes setores da sociedade.
“Estamos diante de um desafio que exige ações em várias frentes. É preciso ampliar a educação financeira nas escolas, fortalecer programas de orientação para famílias, incentivar políticas públicas de inclusão financeira, promover ambientes corporativos mais saudáveis e aproximar profissionais da saúde mental das questões financeiras que afetam seus pacientes. Não estamos falando apenas de dinheiro, mas de qualidade de vida, segurança emocional e prevenção do adoecimento. Quanto mais cedo a sociedade compreender essa relação, maiores serão as chances de reduzir seus impactos”, conclui Domingos.




