A comemoração do Dia das Mães é uma das datas mais emblemáticas do calendário brasileiro, reunindo famílias em torno de celebrações que mesclam afeto, tradição e, em muitos casos, consumo. Contudo, sua origem e institucionalização no país revelam um processo histórico complexo, marcado por influências estrangeiras, interesses políticos e transformações sociais. Enquanto na maioria das nações ocidentais a data é celebrada no segundo domingo de maio — seguindo o modelo estadunidense —, o Brasil adota o segundo domingo de maio desde 1947, mas sua oficialização ocorreu em um contexto político distinto, durante o Estado Novo e, posteriormente, no regime militar.
As origens internacionais e a influência norte-americana
A ideia de dedicar um dia específico para homenagear as mães remonta a civilizações antigas, com registros de festividades em homenagem à deusa Cibele na Grécia e à deusa Reia em Roma. No entanto, a versão moderna da comemoração teve início nos Estados Unidos, em 1908, quando Anna Jarvis promoveu um culto religioso em memória de sua mãe, Ann Reeves Jarvis, uma ativista social que lutava por melhorias nas condições de saúde materna. Jarvis, insatisfeita com a comercialização excessiva da data, dedicou-se a transformá-la em um feriado nacional, o que foi concretizado em 1914 pelo presidente Woodrow Wilson.
A disseminação da ideia pelos EUA chegou ao Brasil por meio de imigrantes europeus e norte-americanos, que trouxeram consigo a tradição de homenagear as mães. No entanto, a data não se firmou imediatamente. Os primeiros registros de comemorações no país datam da década de 1910, em igrejas e escolas, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde eram realizadas cerimônias religiosas e apresentações artísticas dedicadas às mães. A ausência de uma data unificada, contudo, refletia a diversidade cultural e regional brasileira, dificultando a padronização da celebração.
A institucionalização no Brasil: do Estado Novo ao regime militar
A primeira tentativa de oficializar o Dia das Mães no Brasil ocorreu em 1932, quando o então presidente Getúlio Vargas — sob a égide do Estado Novo (1937-1945) — assinou o Decreto nº 21.366, estabelecendo o dia 30 de maio como a data oficial de comemoração. A escolha do dia não foi arbitrária: naquele ano, a Associação Cristã de Moços de São Paulo já havia promovido celebrações no mesmo dia, que coincidia com o domingo mais próximo ao dia de Nossa Senhora Auxiliadora, uma figura venerada pela Igreja Católica. A decisão de Vargas, portanto, alinhou-se a interesses políticos de aproximação com a Igreja e de promoção de valores familiares tradicionais, em um contexto de centralização do poder e de busca por legitimidade social.
Entretanto, a data de 30 de maio não se consolidou como uma tradição nacional. Apenas em 1947, durante o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra, o Dia das Mães foi transferido para o segundo domingo de maio, alinhando-se ao modelo estadunidense e facilitando a padronização de propagandas e promoções comerciais. Essa mudança foi influenciada pela Associação das Empresas de Rádio do Brasil, que buscava uniformizar a data para potencializar vendas de presentes e anúncios. A Igreja Católica, por sua vez, manteve sua resistência à data móvel, preferindo manter o dia 12 de maio — dia de Nossa Senhora de Fátima — como referência para celebrações religiosas.
A consolidação durante o regime militar e a padronização comercial
O processo de fixação do Dia das Mães como uma data nacional só se completou durante o regime militar (1964-1985). Em 1965, o presidente Castelo Branco assinou um novo decreto, reafirmando o segundo domingo de maio como a data oficial, em um movimento que visava não apenas padronizar a celebração, mas também reforçar valores patrióticos e familiares, alinhados à ideologia do governo. A data tornou-se, assim, uma ferramenta de coesão social em um período de intensa repressão política e de busca por controle social.
Nos anos seguintes, o Dia das Mães transformou-se em um dos principais marcos do calendário comercial brasileiro. A indústria de presentes, flores, bombonières e viagens passou a explorar a data de forma agressiva, com campanhas publicitárias que associavam o consumo ao amor materno. Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), as vendas no segundo domingo de maio representam atualmente cerca de 3% do faturamento anual do varejo brasileiro, superando até mesmo o Natal em algumas regiões. A padronização da data, portanto, não foi apenas um ato administrativo, mas também um fenômeno econômico e cultural que se perpetuou até os dias atuais.
Variações globais: uma data para cada cultura
Enquanto o Brasil e a maioria dos países ocidentais adotam o segundo domingo de maio ou datas fixas em março ou dezembro, outras nações apresentam tradições distintas. Na Inglaterra, por exemplo, o Mothering Sunday é celebrado no quarto domingo da Quaresma, uma data de origem religiosa que remonta ao século XVI. Já em Portugal, o Dia da Mãe é comemorado no primeiro domingo de maio, em homenagem a Maria, mãe de Jesus. Nos países nórdicos, como Suécia e Noruega, a data é celebrada no último domingo de maio ou no primeiro de fevereiro, refletindo influências históricas e culturais únicas.
Nos Estados Unidos, onde a tradição moderna nasceu, a data é fixa em 12 de maio desde 1914, mas debates sobre sua comercialização persistiram. Na China, o Dia das Mães é comemorado em 12 de maio, enquanto na Argentina e no México, a data é celebrada no terceiro domingo de outubro. Tais variações demonstram como a comemoração, embora globalmente disseminada, é adaptada às particularidades culturais e históricas de cada país. No Brasil, a escolha do segundo domingo de maio reflete não apenas a influência estadunidense, mas também a busca por uma data móvel que permitisse flexibilidade comercial e social.
A evolução contemporânea e os desafios da data
Nos dias atuais, o Dia das Mães enfrenta novos desafios e transformações. O avanço das discussões sobre diversidade familiar, gênero e representatividade tem levado a questionamentos sobre a naturalização da figura materna como provedora de afeto e cuidado. Campanhas como o #MãesReais, que destacam as múltiplas formas de maternidade — incluindo mães solteiras, adotivas, LGBTQIA+ e não biológicas —, buscam ampliar o conceito de família e desconstruir estereótipos.
Além disso, a pandemia de COVID-19 (2020-2022) redefiniu as formas de comemoração, com muitas famílias optando por celebrações virtuais ou encontros reduzidos para evitar contágios. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as vendas no varejo no segundo domingo de maio de 2020 caíram cerca de 15% em relação ao ano anterior, refletindo as restrições impostas pela crise sanitária. Contudo, o comércio se adaptou rapidamente, com um aumento de 28% nas vendas online durante o período.
Apesar das mudanças sociais e econômicas, o Dia das Mães permanece como uma das datas mais significativas do calendário brasileiro. Sua trajetória, que vai das primeiras homenagens religiosas às campanhas publicitárias modernas, revela como uma comemoração pode ser moldada por interesses políticos, religiosos e comerciais, ao mesmo tempo em que se adapta às transformações da sociedade.




