As ruas de Havana amanheceram na terça-feira com um cenário que lembra os piores dias da crise energética cubana dos anos 1990, mas agora sob uma nova variável
A crescente pressão geopolítica dos Estados Unidos. Moradores relatam atrasos de até 12 horas em filas para abastecer veículos, enquanto bairros inteiros mergulham em apagões de até oito horas diárias. A situação, já crítica, ganhou contornos ainda mais urgentes após declarações recentes do Departamento de Estado norte-americano, que não descartou o uso de “medidas coercitivas” contra o regime de Miguel Díaz-Canel.
“Nós sabemos o que aconteceu na Venezuela em janeiro”, declarou Diego Díaz, um professor universitário de 42 anos ouvido em um botequim do centro de Havana. “Mas aqui é diferente. A ilha não tem petróleo, não tem uma oposição organizada como a da Venezuela, e nossa população está exausta. Se os EUA agirem como agiram em Caracas, a história não será a mesma.”
O combustível que não chega: o elo fraco da economia cubana
Desde o início de 2024, Cuba enfrenta uma redução de 40% nas importações de petróleo venezuelano, seu principal fornecedor desde 2000, quando Hugo Chávez e Fidel Castro selaram uma aliança estratégica. A queda nos envios — que já haviam diminuído gradualmente desde 2019 — foi agravada pelas sanções norte-americanas ao setor energético venezuelano, que agora mira também Cuba. “Sem petróleo, não há eletricidade, não há transporte público, e muito menos alimentos”, explica María López, economista do Centro de Estudos da Economia Cubana (CEEC). “O país depende de 50% a 60% de suas necessidades energéticas de importações. Quando esse fluxo é cortado, o sistema entra em colapso.”
A escassez afeta não apenas particulares, mas também serviços essenciais. Hospitais operam com geradores a diesel em regime de emergência, enquanto caminhões de lixo circulam com atraso, acumulando lixo nas ruas. “As clínicas estão sem anestésicos, os ônibus estão parados, e até os serviços funerários estão comprometidos“, relata uma enfermeira do Hospital Calixto García, em Havana, sob condição de anonimato.
Os EUA jogam duro: sanções ou intervenção?
Em Washington, a retórica contra Cuba tem se tornado cada vez mais dura. Na semana passada, o secretário de Estado, Antony Blinken, afirmou em audiência no Senado que “todas as opções estão sobre a mesa” para conter o que chamou de “influência maligna” de Havana na região. A menção à Venezuela — país onde os EUA apoiaram a derrubada de Nicolás Maduro em janeiro — não passou despercebida. “Eles estão testando o limite“, avalia o analista político Ricardo Fernández, do Instituto de Estudos Internacionais de Havana. “Se a estratégia for impor um bloqueio total ou uma intervenção militar, o resultado será imprevisível. Cuba não é a Venezuela.”
Fontes diplomáticas revelam que a administração Trump estuda três cenários principais: 1) intensificação das sanções ao setor de combustíveis cubano; 2) apoio logístico a grupos de oposição interna; 3) uma operação militar limitada para ‘neutralizar’ supostas ameaças russas ou chinesas na ilha. “O terceiro cenário é o mais arriscado”, afirma um ex-diplomata norte-americano. “Cuba tem um sistema de defesa antiaérea robusto e apoio da Rússia. Qualquer ação direta poderia levar a uma escalada regional.”
O que muda para os cubanos no dia a dia?
A população, enquanto isso, busca alternativas. “Estamos voltando a usar bicicletas e cavalos“, conta Jorge Mendoza, motorista de táxi em Havana. “As filas nas bombas de gasolina são um inferno, e os preços no mercado negro estão absurdos. Um galão de gasolina pode custar até 10 vezes o preço oficial.” A crise também reavivou o êxodo. Segundo dados da Guarda Costeira dos EUA, mais de 120 mil cubanos tentaram cruzar o Estreito da Flórida nos primeiros quatro meses de 2024 — um aumento de 50% em relação ao mesmo período de 2023.
Para especialistas, a situação é um teste de resistência do regime de Díaz-Canel. “O governo tem duas opções: ceder à pressão e iniciar reformas profundas, ou radicalizar e enfrentar o colapso total”, avalia Fernández. “Mas com a população já no limite, qualquer movimento em falso pode ser fatal.”
O tabuleiro geopolítico: Rússia e China como cartas de Cuba
A crise em Cuba não é apenas interna. Moscou e Pequim têm se tornado cada vez mais presentes na ilha, oferecendo ajuda energética e militar em troca de influência. “Cuba é um ativo estratégico para a Rússia“, explica o analista de segurança Alexei Volkov, do think tank *Moscow International Affairs*. “A ilha é uma plataforma para monitorar atividades norte-americanas no Caribe e projetar poder na América Latina.”
Já a China, que recentemente assinou um acordo para modernizar o porto de Mariel, vê Cuba como um ponto logístico crucial para suas rotas comerciais com a América do Sul. “Se os EUA agirem contra Cuba, eles estarão desafiando diretamente Pequim e Moscou”, alerta Volkov. “Isso poderia levar a uma crise global.”
Enquanto isso, em Havana, o governo tenta manter a calma. Díaz-Canel afirmou em cadeia nacional que “a pátria não se dobra”, mas a realidade nas ruas conta outra história. “Ninguém sabe quanto tempo isso vai durar“, desabafa Díaz. “Mas uma coisa é certa: se os apagões e as filas não acabarem logo, o povo vai tomar as rédeas da história.”




