O vice-primeiro-ministro da Coreia do Sul, Bae Kyung-hoon, assumiu ontem um posicionamento estratégico ao vincular o avanço da inteligência artificial (IA) ao imperativo de uma distribuição equitativa de riqueza, em um momento crítico para a economia nacional
A declaração, feita durante entrevista exclusiva à CNBC, ocorreu em meio a um cenário de euforia nos mercados, impulsionados pelo desempenho recorde das fabricantes sul-coreanas de chips — como a Samsung Electronics — mas também permeado por tensões sociais e trabalhistas.
O paradoxo do boom tecnológico: riqueza concentrada e conflitos emergentes
A Coreia do Sul vive uma dualidade paradoxal. Enquanto o setor de tecnologia, especialmente os fabricantes de semicondutores, registra lucros históricos — a Samsung superou em mais de oito vezes suas projeções de lucro no último trimestre, graças à demanda por chips essenciais à IA —, os trabalhadores das grandes corporações enfrentam disputas por direitos cada vez mais acirradas. O caso mais recente envolveu a Samsung Electronics, onde uma greve sindical de 18 dias foi suspensa na quarta-feira após a intervenção governamental, que negociou um acordo preliminar com os funcionários.
Greve na Samsung: uma amostra dos embates futuros na era da IA
Os trabalhadores exigiam a formalização dos bônus em contratos, o fim de limites para pagamentos variáveis e uma distribuição equivalente a 15% do lucro operacional da empresa como bonificação. O acordo, aprovado para votação entre 24 de maio e 27 de maio, representa um alívio temporário, mas, segundo Bae, não é um episódio isolado. “Na era da IA, mais empresas gigantes continuarão surgindo. Nesse processo, conflitos entre trabalhadores e empresas podem continuar aparecendo e, quando isso ocorrer, será importante resolvê-los com sabedoria por meio do diálogo”, afirmou o vice-premiê.
O executivo citou como exemplo a montadora Hyundai, onde a integração de robôs avançados, como o Atlas — desenvolvido pela subsidiária da Samsung, Boston Dynamics —, tem gerado “muitas preocupações e apreensões” entre os funcionários. A automação, embora aumente a produtividade, também acende o alerta sobre o futuro do emprego tradicional em setores industriais de alta tecnologia.
O desafio de Seul: construir uma sociedade inclusiva em IA
Bae não se limitou a reconhecer os riscos. Ele propôs um roteiro para a Coreia do Sul: garantir que os benefícios da IA não se restrinjam a acionistas e executivos, mas se estendam à população. “Os benefícios da IA também precisam chegar ao público”, destacou, defendendo a construção de “uma sociedade inclusiva em IA, uma sociedade em que ninguém fique para trás na era da inteligência artificial”.
Sua fala ecoa as preocupações globais sobre os impactos sociais da tecnologia. Enquanto governos e empresas celebram os avanços da IA, especialistas alertam para a possibilidade de que, sem políticas públicas robustas, a inovação possa aprofundar desigualdades. Na Coreia do Sul, onde o setor tecnológico responde por cerca de 30% do PIB, a discussão transcende o âmbito corporativo e ganha contornos de prioridade nacional.
O papel do governo: mediação e regulação em um cenário em transformação
A intervenção do governo sul-coreano na greve da Samsung — com negociações de última hora que evitaram uma paralisação de quase três semanas — sinaliza uma postura ativa na mediação de conflitos trabalhistas. No entanto, o vice-premiê deixou claro que a solução não se limita a apaziguar disputas pontuais. Trata-se de antecipar os desafios estruturais que a IA impõe: desde a requalificação profissional até a redistribuição dos ganhos econômicos gerados pela automação.
As declarações de Bae chegam em um momento em que Seul busca consolidar sua posição como líder global em inovação tecnológica. Projetos como o “K-IA Valley”, um polo de desenvolvimento de inteligência artificial, e investimentos em robótica avançada, refletem essa ambição. Contudo, o sucesso desse projeto dependerá, inevitavelmente, da capacidade de conciliar crescimento econômico com justiça social — um equilíbrio que, até agora, permanece frágil.




