Parlamentares enviaram carta a Marco Rubio e apontaram medidas econômicas e diplomáticas que, segundo eles, podem pressionar instituições do país antes do pleito de outubro
Um grupo de parlamentares dos Estados Unidos encaminhou nesta quinta-feira (24) uma carta ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, na qual manifesta preocupação com a política adotada pelo governo de Donald Trump em relação ao Brasil às vésperas das eleições presidenciais de outubro.
No documento, os congressistas classificam como uma possível estratégia de interferência uma série de decisões tomadas pela administração Trump desde 2025. Segundo eles, medidas econômicas, sanções e iniciativas diplomáticas estariam produzindo pressão sobre instituições brasileiras durante o período eleitoral.
Entre os signatários estão o senador Bernie Sanders e as deputadas Pramila Jayapal, Alexandria Ocasio-Cortez e Delia Ramirez, além do deputado Jesús García. A carta questiona mudanças na relação entre Washington e Brasília e cita episódios envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), o governo brasileiro e integrantes da família Bolsonaro.
Tarifas e sanções entram no centro das críticas
Um dos principais pontos levantados pelos parlamentares é o uso de instrumentos econômicos pelos Estados Unidos durante o processo judicial envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro no STF.
Segundo a carta, as tarifas e sanções adotadas pela administração Trump ocorreram paralelamente às críticas feitas pelo presidente norte-americano às decisões da Justiça brasileira relacionadas ao processo contra Bolsonaro. O ex-presidente foi condenado pelo STF por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Os congressistas também fazem referência à investigação comercial aberta pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da legislação norte-americana. O procedimento antecedeu a adoção de tarifas que chegaram a 50% sobre determinados produtos brasileiros.
Na avaliação apresentada no documento, a utilização de medidas comerciais em meio à disputa envolvendo Bolsonaro e instituições brasileiras representa uma alteração significativa na política tradicional de Washington em relação ao país.
Carta questiona atuação de Darren Beattie
Outro nome citado pelos parlamentares é o de Darren Beattie, integrante do Departamento de Estado designado para atuar como assessor sênior em assuntos relacionados ao Brasil.
Os congressistas questionam a escolha de Beattie e fazem referência a manifestações públicas do funcionário sobre instituições brasileiras. A presença dele na política externa dos Estados Unidos para o Brasil também já havia provocado controvérsia.
Em março, Beattie foi impedido de entrar no território brasileiro. Na ocasião, o Itamaraty informou que havia identificado omissões e informações consideradas falsas relacionadas às razões apresentadas para a viagem.
A atuação de integrantes do Departamento de Estado passou a receber atenção adicional diante da aproximação do governo Trump com setores da política brasileira alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro também aparece no documento
A relação entre Donald Trump e o senador Flávio Bolsonaro, que disputa a Presidência da República, é outro episódio mencionado pelos parlamentares norte-americanos.
A carta cita o encontro entre os dois políticos realizado em maio no Salão Oval da Casa Branca. Na ocasião, Flávio afirmou ter solicitado ao governo dos Estados Unidos que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) fossem classificados como Organizações Terroristas Estrangeiras.
Dois dias depois do encontro com Trump, o Departamento de Estado anunciou a designação das duas facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras. O episódio foi registrado à época por diferentes veículos de imprensa.
Além da reunião com Trump, Flávio Bolsonaro esteve posteriormente com integrantes da administração norte-americana, incluindo autoridades do Departamento de Estado. Segundo relatos publicados na época, a agenda também envolveu discussões sobre tarifas, segurança e relações entre os dois países.
Parlamentares pedem atenção à relação entre os países
Ao encaminhar a manifestação a Marco Rubio, os congressistas afirmam que as decisões tomadas pelo governo norte-americano precisam ser analisadas também à luz do processo eleitoral brasileiro.
A preocupação apresentada na carta se concentra na possibilidade de que instrumentos da política externa e comercial dos Estados Unidos sejam utilizados de maneira a exercer influência sobre instituições ou atores políticos brasileiros durante a campanha.
A manifestação ocorre em um momento de forte tensão na relação bilateral. Além das disputas envolvendo o julgamento de Bolsonaro, Brasil e Estados Unidos têm enfrentado divergências comerciais e diplomáticas, enquanto candidatos brasileiros mantêm contatos com integrantes do governo Trump.
O encontro entre Flávio Bolsonaro e Trump em maio, por exemplo, foi acompanhado por declarações do senador sobre temas relacionados às eleições brasileiras e à futura relação entre Brasília e Washington. Na ocasião, Flávio também afirmou ter discutido tarifas comerciais e investimentos em terras raras com o presidente norte-americano.
A carta enviada nesta quinta-feira acrescenta mais um capítulo à disputa política e diplomática entre os dois países durante o período que antecede as eleições brasileiras de outubro.




