Demanda global e safra recorde distorcem preços do café em abril de 2026
A queda nos preços do café tradicional (-3,2%) e gourmet (-1,8%) em abril de 2026, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), reflete a projeção de uma colheita 8% maior em 2026, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O excesso de oferta no mercado spot pressionou as cotações dessas categorias, que já haviam acumulado perdas de 5,5% no primeiro trimestre. “A safra recorde desequilibra temporariamente a relação entre oferta e demanda, beneficiando o consumidor final”, analisa a economista Ana Luiza Rodrigues, da FGV Agro.
Segmentos de nicho resistem à queda: Descafeinado e café especial invertem a tendência
Contrariando o movimento geral, os cafés descafeinado (+15,4%) e especial (+17,1%) registraram altas expressivas em abril, impulsionadas por três fatores principais: (1) custos logísticos elevados para importação de grãos verdes, especialmente do Vietnã e Colômbia; (2) valorização de 12% no dólar frente ao real no período, encarecendo insumos; e (3) demanda estável por produtos premium, que não acompanhou a queda da renda média. “O café descafeinado, por exemplo, depende de processos industriais mais complexos, que não se beneficiam da escala da safra tradicional”, explica Rodrigues.
Impacto nos consumidores e estratégias das indústrias
A disparidade de preços pode gerar um ‘efeito migração’ entre categorias: enquanto o café tradicional se tornou 18% mais barato em relação a abril de 2025, o especial agora custa 22% acima do mesmo período. Marcas como 3 Corações e Melitta já sinalizam reajustes nos preços de seus blends premium, mas mantêm descontos agressivos em linhas convencionais. “As indústrias estão aproveitando a baixa nos grãos para alavancar vendas de café tradicional, enquanto o segmento especial busca fidelizar clientes com embalagens premium”, comenta o analista de mercado Thiago Silva, da Safras & Mercado.
Perspectivas para os próximos meses: Equilíbrio ou nova crise?
As projeções da Abic indicam que, até julho de 2026, os preços do café tradicional devem se estabilizar em torno de R$ 4,80/kg (abaixo dos R$ 5,20/kg de janeiro), enquanto os cafés especiais podem manter a alta, com cotações chegando a R$ 28/kg. No entanto, o risco de geadas tardias no Sul do Brasil — região responsável por 35% da produção nacional — ainda é monitorado. “Qualquer adversidade climática poderia reverter o cenário atual em poucas semanas”, alerta Rodrigues. Para o consumidor, a recomendação é aproveitar os preços baixos agora, mas diversificar as compras para evitar surpresas no segundo semestre.




