O Reino Unido comemora três anos desde a formalização do Brexit, mas a celebração não ecoa além das fronteiras nacionais
O que era vendido como uma oportunidade de reerguer a economia britânica sob a bandeira do ‘tomar controle’ transformou-se, na prática, em um gol contra geopolítico e econômico. A saída do bloco europeu não apenas não cumpriu as promessas de recuperar empregos e impulsionar a indústria local, como também expôs o país a um isolamento sem precedentes no pós-guerra, segundo analistas.
A armadilha do ‘emprego britânico’: como o discurso da extrema direita se esvaziou
Um dos pilares da campanha pelo Brexit foi a narrativa de que a União Europeia estaria ‘roubando’ vagas de emprego dos cidadãos britânicos. No entanto, o que se viu foi o oposto: a escassez de mão de obra em setores-chave — desde a agricultura até a saúde — se agravou, enquanto empresas enfrentam dificuldades para contratar trabalhadores europeus dispostos a ocupar cargos que os britânicos não querem. Tomaz Oliveira Paoliello, especialista em relações internacionais, destaca que a promessa de uma ‘repatriação de empregos’ não passou de retórica vazia.
“Os discursos da extrema direita britânica criaram expectativas irreais. A realidade é que muitos setores dependiam da mão de obra europeia, e a burocracia imposta pelo Brexit só piorou a situação. Agora, o Reino Unido precisa importar trabalhadores de países distantes, como Índia e Filipinas, para suprir a demanda”, explica Paoliello. A falta de profissionais qualificados já levou ao fechamento de linhas de produção e à redução de serviços essenciais, como o transporte público em Londres.
Alinhamento com Trump: a aposta que não vingou
Outra promessa central do Brexit era que o Reino Unido encontraria uma aliança estratégica mais vantajosa nos Estados Unidos, especialmente sob a liderança de Donald Trump. Contudo, a realidade mostrou-se bem diferente. Com a administração Trump atual, caracterizada por um protecionismo agressivo e um distanciamento dos compromissos multilaterais, o Reino Unido descobriu que não está entre as prioridades da Casa Branca.
“Havia uma crença generalizada de que os EUA abraçariam o Reino Unido como um parceiro especial após o Brexit. Mas o que vemos é um governo americano cada vez mais voltado para si mesmo, com pouca disposição para acordos comerciais profundos ou apoio político incondicional”, afirma Paoliello. A recente tensão entre Londres e Washington em relação à guerra na Ucrânia e à política comercial chinesa reforça essa percepção de isolamento.
A Europa se fortalece sem o Reino Unido
Enquanto o Reino Unido lida com os efeitos colaterais de sua decisão, os demais países europeus observaram — e aprenderam — com os erros britânicos. A União Europeia não apenas resistiu à previsão de desintegração, como também ampliou sua integração em áreas como defesa, energia e tecnologia. A passagem do bloco pelo Brexit serviu como um alerta: os custos de uma saída são altos demais para serem ignorados.
“A Europa não só não se fragmentou, como saiu mais coesa do processo. O Reino Unido, ao contrário, viu sua influência global diminuir. Países como Alemanha e França, que antes dependiam das negociações com Londres para pautar as discussões no bloco, agora conduzem as agendas sozinhos”, comenta o analista. A perda de acesso ao mercado único europeu, que representava 40% do comércio britânico, também jogou uma pá de cal nas expectativas de recuperação econômica.
Reaproximação regulatória: um remendo em uma ferida aberta
Diante do fracasso do Brexit em seus objetivos principais, o governo britânico tem ensaiado uma reabertura de canais de diálogo com a União Europeia, especialmente no campo regulatório. Em junho de 2023, o primeiro-ministro Rishi Sunak anunciou um acordo de cooperação com Bruxelas para facilitar o comércio de bens, mas a ausência de qualquer menção à livre circulação de pessoas deixa claro que os termos do divórcio não serão revistos.
“O Reino Unido está tentando minimizar os danos, mas não há como voltar atrás no principal custo do Brexit: a perda da mobilidade laboral. Sem acordos que permitam a circulação de estudantes, profissionais e trabalhadores europeus, o país continuará a enfrentar escassez de mão de obra e queda de competitividade”, avalia Paoliello. Enquanto isso, a União Europeia mantém sua postura firme: não há concessões sem contrapartidas, e o livre trânsito — um dos pilares do projeto europeu — não está em negociação.
O futuro: entre o isolamento e a ilusão de uma ‘Global Britain’
Apesar dos prejuízos evidentes, alguns setores ainda apostam em uma recuperação pela via de novas alianças globais, como a parceria com a Índia ou o reforço de laços com a América Latina. No entanto, especialistas são céticos. “A ideia de uma ‘Global Britain’ sempre foi nebulosa. O Reino Unido não tem o peso econômico ou geopolítico para substituir a União Europeia como principal parceiro comercial. Sem acesso ao mercado único, o país está condenado a uma posição secundária no cenário global”, conclui Paoliello.
Enquanto isso, os cidadãos britânicos arcam com o ônus: inflação recorde, queda no poder de compra e serviços públicos cada vez mais precários. Três anos após o Brexit, a conta finalmente chegou — e o Reino Unido está pagando por ela.




