Parceria histórica: de fornecedor a pilar da segurança alimentar chinesa
O Brasil consolidou-se como fornecedor estratégico da China na última década, mas a relação transcende a lógica comercial. Durante o 12º Congresso da Associação Brasileira de Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), realizado em Brasília na semana passada, o embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, reafirmou que os dois países não apenas mantêm uma parceria comercial robusta, como também avançam em sinergias regulatórias, tecnológicas e logísticas para garantir a segurança alimentar global. Segundo dados apresentados pelo diplomata, as exportações brasileiras de produtos agrícolas para a China atingiram US$ 51,6 bilhões em 2025 — montante equivalente a 25% de todas as importações agrícolas chinesas naquele ano.
A China, que desde 2008 é o principal destino das exportações agrícolas brasileiras, ultrapassou os Estados Unidos como maior comprador de produtos agropecuários do Brasil em 2018. Essa dinâmica reflete não apenas uma complementaridade natural entre as economias — com o Brasil detendo terras férteis e clima favorável à agricultura tropical, e a China necessitando garantir o abastecimento de uma população de 1,4 bilhão de habitantes — mas também um alinhamento político e estratégico cada vez mais explícito.
Inovações e infraestrutura: a revolução silenciosa na agricultura chinesa
Zhu Qingqiao enfatizou que a segurança alimentar é uma prioridade nacional chinesa, ecoando a máxima do presidente Xi Jinping: *“Devemos segurar nossa própria tigela de arroz”*. Para isso, o país tem investido massivamente em modernização agrícola, com cerca de 120 milhões de hectares de terras aráveis e uma expansão acelerada em infraestrutura de irrigação e armazenamento de grãos. O 15º Plano Quinquenal chinês (2026-2030) prevê investimentos bilionários em agricultura inteligente, uso eficiente de recursos hídricos e redução de perdas pós-colheita — atualmente responsáveis por até 30% da produção em algumas regiões.
O embaixador destacou o papel da ciência e da tecnologia como vetores dessa transformação. “A agricultura do futuro é digital”, afirmou, citando projetos de monitoramento por satélite, drones para pulverização seletiva e sistemas de agricultura de precisão que otimizam o uso de insumos. No campo regulatório, a China tem avançado em parcerias com o Brasil para harmonizar normas fitossanitárias, facilitando a entrada de novos produtos no mercado chinês. Em 2024, foram assinados protocolos para exportação de sorgo brasileiro, cuja primeira remessa — 25,8 mil toneladas — chegou à China em janeiro de 2025, com projeções de crescimento exponencial nos próximos trimestres.
Milho e sorgo: os novos protagonistas do comércio bilateral
Além do sorgo, o milho brasileiro tem ganhado espaço no mercado chinês, ocupando atualmente a quinta posição entre os fornecedores estrangeiros. Zhu Qingqiao projetou um aumento significativo nas exportações desses grãos nos próximos anos, impulsionado pela demanda chinesa por diversificação de fontes de proteína animal — especialmente na avicultura e suinocultura, setores em franca expansão no país asiático. “A China não busca apenas volume, mas também qualidade e segurança alimentar”, explicou o embaixador, referindo-se aos rigorosos padrões chineses de rastreabilidade e controle de resíduos.
O potencial de crescimento é corroborado por analistas do setor. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), as exportações de milho para a China poderiam triplicar até 2030, caso sejam superados os entraves logísticos e sanitários. A China, por sua vez, tem demonstrado flexibilidade em acordos bilaterais, como a recente ampliação de cotas para importação de carne bovina brasileira — outro produto que, segundo Zhu, poderá ser beneficiado por sinergias com a agricultura chinesa na área de insumos e tecnologia.
Tecnologia agrícola: o elo invisível da parceria
A cooperação tecnológica entre Brasil e China ultrapassa o campo das commodities. Zhu Qingqiao mencionou projetos conjuntos em biotecnologia, como o desenvolvimento de sementes adaptadas a climas tropicais e resistentes a pragas, além de trocas de expertise em mecanização agrícola. A China, líder global em máquinas autônomas e robótica agrícola, tem buscado no Brasil soluções para suas regiões de clima semiárido, enquanto o país sul-americano se beneficia do compartilhamento de tecnologias de ponta em irrigação por gotejamento e sistemas de alerta precoce para doenças em lavouras.
Um exemplo concreto é a parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e institutos chineses para o desenvolvimento de variedades de soja com maior teor proteico, alinhadas às demandas chinesas por produtos de alta qualidade nutricional. “Essas iniciativas não apenas fortalecem nossa relação comercial, como também contribuem para a soberania alimentar de ambos os países”, avaliou Zhu.
Desafios e perspectivas: entre a geopolítica e a sustentabilidade
Apesar dos avanços, a parceria enfrenta desafios estruturais. A China, alvo de sanções comerciais por parte de países ocidentais, tem buscado reduzir sua dependência de importações de grãos básicos, investindo em autossuficiência — meta que, segundo analistas, só será atingida parcialmente até 2035. Por outro lado, o Brasil precisa lidar com pressões ambientais, como o controle do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, regiões críticas para a produção de soja e carne bovina exportadas à China.
Zhu Qingqiao reconheceu a importância da sustentabilidade, destacando que a China apoia iniciativas brasileiras de agricultura de baixo carbono e rastreabilidade, como o programa Soja Responsável. “A segurança alimentar não pode ser dissociada da segurança ambiental”, afirmou. Para especialistas ouvidos pela ClickNews, a parceria Brasil-China na agricultura pode servir de modelo para outros países, desde que sejam equacionados os riscos de dependência excessiva e os impactos socioambientais.
Conclusão: um futuro alimentado pela cooperação
A trajetória de Brasil e China no setor agroalimentar ilustra como a interdependência pode ser um motor de desenvolvimento mútuo. Com projeções de que o comércio bilateral de produtos agrícolas ultrapasse US$ 60 bilhões até 2030, a aliança entre os dois gigantes — um detentor de terras e o outro de capital tecnológico e financeiro — tende a redefinir não apenas os mercados globais, mas também as estratégias de segurança alimentar em um cenário de mudanças climáticas e pressões populacionais. Como resumiu Zhu Qingqiao: “Trabalhamos não apenas para alimentar nossas populações, mas para garantir que as próximas gerações tenham acesso a alimentos saudáveis e abundantes”.




