Lançamento do ‘Cerrado +Cooperativo’ impulsiona agricultura familiar com investimento de R$ 50 milhões
O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) formalizaram, nesta quarta-feira (12), o lançamento do edital ‘Cerrado +Cooperativo’, uma iniciativa estratégica voltada para o fortalecimento de cooperativas e associações da agricultura familiar que atuam no bioma Cerrado. A chamada pública prevê a destinação de R$ 50 milhões em recursos não reembolsáveis, provenientes do Fundo Socioambiental do BNDES, com o objetivo de fomentar empreendimentos coletivos que aliem produtividade, sustentabilidade ambiental e inclusão social.
Contexto histórico e importância da agricultura familiar no Cerrado
O Cerrado, segundo maior bioma brasileiro, abrange cerca de 2 milhões de km² e é considerado um dos principais celeiros agrícolas do país. No entanto, a agricultura familiar nesse ecossistema enfrenta desafios estruturais, como a escassez de recursos financeiros, a pressão por práticas insustentáveis e a dificuldade de acesso a mercados. Segundo dados do MDA, aproximadamente 1,5 milhão de famílias dependem economicamente da agricultura familiar na região, responsável por cerca de 25% da produção nacional de alimentos básicos, como feijão, mandioca e milho.
Historicamente, políticas públicas direcionadas à agricultura familiar no Cerrado foram marcadas por iniciativas pontuais e recursos limitados. O ‘Cerrado +Cooperativo’ surge como uma resposta coordenada a essas lacunas, alinhando-se a programas como o Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) e a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Pnapo), que visam promover modelos produtivos mais resilientes e ambientalmente responsáveis.
Estrutura e critérios da chamada pública
A chamada ‘Cerrado +Cooperativo’ estabelece requisitos específicos para participação. Podem se inscrever instituições sem fins lucrativos, como cooperativas e associações, desde que atuem exclusivamente no bioma Cerrado. Cada proposta submetida deve ter valor mínimo de R$ 5 milhões, garantindo que os recursos sejam aplicados em projetos de grande impacto. As inscrições estarão abertas até 31 de julho de 2026, com divulgação dos resultados prevista para outubro do mesmo ano.
Entre os critérios de prioridade estão iniciativas que incluam a participação de mulheres, jovens, extrativistas e povos e comunidades tradicionais, grupos historicamente marginalizados no acesso a políticas públicas. Além disso, os projetos devem contemplar ações voltadas à adaptação da agricultura familiar às mudanças climáticas, como a implementação de sistemas agroflorestais e a recuperação de áreas degradadas. A conservação do Cerrado também é um eixo central, com ênfase em práticas como o manejo sustentável do solo e da água, e a redução do desmatamento.
Eixos de apoio e inovações previstas
A iniciativa contempla cinco eixos de apoio, cada um com diretrizes claras para os projetos submetidos. O primeiro eixo foca em práticas agroecológicas e sistemas de produção de base ecológica, incentivando a redução do uso de agrotóxicos e a promoção da biodiversidade. O segundo eixo trata do manejo sustentável dos recursos naturais, com ações como a construção de sistemas de captação de água da chuva e a recuperação de nascentes.
O terceiro eixo aborda o fortalecimento da gestão de empreendimentos coletivos, com capacitações em administração, comercialização e governança. O quarto eixo prevê a implantação ou ampliação de agroindústrias, visando agregar valor à produção local e criar postos de trabalho. Por fim, o quinto eixo busca ampliar o acesso a mercados institucionais e privados, com destaque para programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), além de parcerias com redes de supermercados e feiras locais.
Impacto esperado e desafios a serem superados
Segundo o MDA, a expectativa é que o ‘Cerrado +Cooperativo’ beneficie diretamente cerca de 20 mil famílias agricultoras, com potencial de geração de 5 mil empregos formais nas agroindústrias apoiadas. Além disso, a iniciativa pode contribuir para a redução de 30% nas emissões de gases de efeito estufa provenientes da agricultura familiar na região, alinhando-se aos compromissos internacionais do Brasil no Acordo de Paris.
No entanto, especialistas alertam para desafios como a burocracia na execução dos recursos, a necessidade de assistência técnica contínua e a garantia de que os benefícios cheguem efetivamente aos grupos mais vulneráveis. O coordenador do Núcleo de Estudos Agrários da Universidade Federal de Goiás, Dr. Ricardo Oliveira, destaca que “o sucesso do programa dependerá não apenas do volume de recursos, mas da capacidade de articulação entre governo, sociedade civil e setor privado”.
Transparência e acompanhamento
O BNDES e o MDA comprometeram-se a disponibilizar um painel de transparência com informações sobre a execução dos recursos, incluindo o número de projetos aprovados, os valores desembolsados e os resultados alcançados. Além disso, serão realizadas audiências públicas regionais para monitorar o andamento das iniciativas e colher sugestões da comunidade. Essa medida busca evitar casos de desvios de recursos, como os verificados em programas anteriores, como o Fundo Amazônia.
A iniciativa ‘Cerrado +Cooperativo’ representa um avanço significativo na política de desenvolvimento rural do país, mas seu sucesso dependerá da efetiva implementação das ações e do engajamento dos atores envolvidos. Para os próximos meses, a expectativa é que o edital atraia centenas de propostas inovadoras, capazes de transformar a realidade da agricultura familiar no Cerrado e servir como modelo para outras regiões do Brasil.




