Luís Roberto Barroso, ex-presidente do STF, afirmou neste sábado (23/05/2026) que o sistema eleitoral brasileiro é “caro e pouco representativo”
O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso, desferiu críticas contundentes ao sistema eleitoral brasileiro durante o Fórum Esfera Brasil 2026, realizado neste sábado (23) no Guarujá (SP). Em entrevista exclusiva ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, o jurista destacou a necessidade urgente de reformas políticas, classificando o atual modelo como “caro, ineficiente e distorcido”.
Um sistema que pune a representatividade e infla os custos eleitorais
Barroso concentrou suas críticas no sistema proporcional de lista aberta, adotado nas eleições para Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais. Segundo ele, o mecanismo reduz drasticamente a capacidade do eleitor de influenciar diretamente a composição do Legislativo, ao vincular o voto a partidos — não a candidatos específicos. “O eleitor vota em quem ele quer, mas o voto vai para o partido”, afirmou, destacando que apenas 5% dos deputados são eleitos com votos próprios.
A consequência, na avaliação do ministro, é um ambiente onde a accountability — ou seja, a responsabilidade dos representantes perante os eleitores — é praticamente inexistente. “O eleitor não sabe quem ele colocou lá, e o candidato não sabe por quem foi colocado. Um não tem de quem cobrar, o outro não tem de quem prestar contas”, disse Barroso, que ocupou a presidência do STF entre 2023 e 2025. Segundo ele, essa dinâmica cria um “vazio de legitimidade” que compromete a democracia.
O ministro também associou o sistema a um custo elevado das campanhas eleitorais, um dos principais entraves para a redução da corrupção no Brasil. “Boa parte dos problemas de corrupção que há no Brasil estão associados ao financiamento eleitoral”, declarou, defendendo que reformas capazes de “baratear o processo” são essenciais para combater irregularidades.
A insegurança jurídica no Brasil: “uma lenda ou uma realidade?”
Em um contraponto às queixas recorrentes do setor privado sobre a instabilidade do ambiente de negócios, Barroso minimizou a ideia de que o Brasil enfrenta um problema sistêmico de insegurança jurídica. “É um pouco mais uma lenda do que uma realidade”, afirmou, argumentando que o país possui instituições judiciais estáveis há cerca de 40 anos e que interferências do Judiciário em contratos privados não são frequentes.
O ministro reconheceu, no entanto, que desafios como a carga tributária elevada e a volatilidade cambial persistem como obstáculos ao desenvolvimento econômico. “Não há uma ingerência indevida nos contratos como algo sistemático”, rebateu, embora tenha ressaltado que eventuais casos isolados devem ser combatidos com rigor.
Inteligência artificial no Judiciário: a “revolução” que já começou
Barroso também teceu comentários sobre o papel da inteligência artificial (IA) no sistema de Justiça. Para ele, a tecnologia será “decisiva” para aprimorar a eficiência do Judiciário, desde a triagem de processos até a identificação de padrões em casos recorrentes. “A IA não substituirá juízes, mas será uma ferramenta fundamental para garantir celeridade e precisão”, afirmou, sem detalhar projetos específicos em andamento no STF.
O debate ocorreu em um momento em que o Brasil debate reformas estruturais, incluindo a PEC da Reforma Política, que tramita no Congresso. Barroso, que já foi relator de iniciativas como a Lei das Fake News, reforçou que, sem mudanças no sistema eleitoral, os esforços para modernizar a democracia brasileira estarão fadados ao fracasso.
As declarações do ex-presidente do STF reforçam as tensões entre o Judiciário e o Legislativo, alimentadas pela crescente judicialização da política — um fenômeno que, segundo analistas, tende a se intensificar nas próximas eleições.




