Agência acompanha relatos de neuropatia óptica ligada a medicamentos GLP-1
Doença rara atinge nervo óptico e pode causar perda permanente
Uma perda súbita de visão pode estar relacionada a uma doença rara que passou a chamar a atenção de autoridades sanitárias e pesquisadores após relatos envolvendo medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1. No Brasil, a Anvisa acompanha notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, conhecida como Noiana, em pacientes que utilizavam medicamentos como Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro.
A doença atinge o nervo óptico, estrutura responsável por levar as imagens captadas pelos olhos até o cérebro. O problema ocorre quando o fluxo sanguíneo para a parte anterior desse nervo é interrompido, provocando uma espécie de “infarto” na região. Como consequência, o paciente pode apresentar piora repentina da visão, geralmente em apenas um dos olhos e sem dor associada. Em muitos casos, a perda visual acaba sendo permanente.
Diabetes é fator de risco associado à condição
A Noiana é considerada rara, mas surge com maior frequência entre pessoas que já apresentam fatores de risco para problemas nos vasos sanguíneos, como pacientes diabéticos — condição que pode comprometer a circulação sanguínea e deixar o nervo óptico mais vulnerável à falta de oxigênio.
Por esse motivo, estabelecer relação direta entre os medicamentos e a doença não é simples. A própria Anvisa ressalta que a presença de um medicamento e de uma doença em uma mesma notificação não comprova, por si só, que um tenha provocado o outro.
Bulas passaram a incluir a reação adversa em 2025
Ainda assim, o tema ganhou repercussão internacional. Em junho de 2025, a Anvisa determinou a inclusão da Noiana como reação adversa muito rara nas bulas de medicamentos à base de semaglutida, como Ozempic, Wegovy e Rybelsus, após avaliação conduzida pelo Comitê de Avaliação de Risco em Farmacovigilância da Agência Europeia de Medicamentos.
Estudos científicos apresentam resultados divergentes
A relação entre semaglutida e Noiana segue sendo investigada pela comunidade científica. Um estudo publicado na revista JAMA Ophthalmology analisou dados de 37,1 milhões de adultos com diabetes e identificou associação entre o uso de semaglutida e um aumento modesto na incidência da doença, embora os próprios pesquisadores tenham afirmado que são necessários novos estudos para esclarecer a relação e seus mecanismos.
Outras pesquisas chegaram a resultados distintos. Um segundo estudo, também publicado na JAMA Ophthalmology, encontrou maior risco entre usuários de semaglutida, mas destacou que a ocorrência absoluta da doença permaneceu baixa entre os pacientes analisados.
Análise com 1,5 milhão de pacientes reforça cautela
Uma análise publicada em 2025 avaliou o uso de semaglutida e tirzepatida em mais de 1,5 milhão de pessoas com diabetes tipo 2. Após o pareamento dos pacientes analisados, o grupo que utilizou esses medicamentos apresentou 35 casos de Noiana, contra 19 casos no grupo de comparação. Os autores do estudo também ressaltaram que o risco absoluto permaneceu baixo mesmo diante dessa diferença.
Diante desse cenário, as evidências disponíveis ainda não permitem uma conclusão definitiva sobre o tema. Enquanto alguns estudos identificaram associação estatística entre o uso dos medicamentos e a doença, outros não encontraram o mesmo resultado, e fatores como diabetes e outras condições de saúde preexistentes podem influenciar diretamente o risco individual.
Fabricante nega aumento de incidência em estudos clínicos
A Novo Nordisk, responsável pela fabricação de Ozempic, Wegovy e Rybelsus, afirma que a semaglutida foi avaliada em diferentes programas de estudos clínicos e que análises de ensaios randomizados não demonstraram aumento na incidência de Noiana entre os participantes que receberam o medicamento. A empresa também declara acompanhar os relatos de eventos adversos e trabalhar em conjunto com autoridades regulatórias para avaliar continuamente a segurança de seus produtos.
No caso das notificações registradas no Brasil, a análise conduzida pela Anvisa segue justamente essa lógica de farmacovigilância: os relatos servem para identificar possíveis sinais de segurança, mas precisam ser avaliados em conjunto com outros dados antes que uma relação de causa e efeito seja formalmente estabelecida.
Perda repentina de visão exige avaliação médica imediata
A Noiana costuma provocar alteração visual súbita e indolor. Por esse motivo, uma perda repentina da visão, especialmente quando afeta apenas um dos olhos, deve ser avaliada com rapidez por um profissional de saúde qualificado.
A investigação sobre os medicamentos continua em andamento. Enquanto novos estudos buscam esclarecer a possível relação entre os agonistas de GLP-1 e a neuropatia óptica, a orientação das autoridades é não interromper nem alterar o tratamento por conta própria. Qualquer suspeita de reação adversa deve ser comunicada ao médico responsável e pode também ser registrada nos canais oficiais de farmacovigilância.




