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HIV: o que se sabe sobre suposto caso de cura de mulher nos EUA

A mulher, que não teve o nome ou a idade revelados, não apresenta nenhum sinal do HIV há 14 meses, mesmo depois de parar a terapia antirretroviral

Pesquisadores americanos anunciaram na terça-feira (15/2) a terceira possível cura de uma infecção pelo HIV, o vírus causador da aids. Esse é o primeiro caso que envolve uma paciente do sexo feminino.

Durante uma conferência médica realizada em Denver, nos Estados Unidos, especialistas da Weill Cornell Medicine, de Nova York, disseram que utilizaram uma nova abordagem, diferente do que foi feito nos dois registros anteriores de cura.

Em vez de fazer um transplante de medula óssea com células-tronco obtidas a partir de um doador adulto compatível, eles optaram por usar as células-tronco encontradas no sangue do cordão umbilical de um recém-nascido.

De acordo com os responsáveis pelo estudo, isso pode ampliar o número de indivíduos de diferentes origens que se beneficiariam dessa estratégia, já que é possível usar o sangue de cordão umbilical de um doador parcialmente compatível, enquanto que o transplante convencional exige uma similaridade bem maior entre quem está doando e quem está recebendo.

Embora a notícia tenha sido celebrada na comunidade científica e entre associações de pacientes, é importante dizer que tratamentos do tipo só são indicados para uma parcela mínima dos mais de 37 milhões de pessoas infectadas com o HIV no mundo.

Confira a seguir o que se sabe sobre o terceiro caso de provável cura, o método de tratamento e o impacto que ele pode ter no futuro.

A paciente

Por questões de privacidade, o grupo da Weill Cornell Medicine não divulgou o nome ou a idade da mulher que supostamente está livre do HIV.

Sabe-se que o vírus foi detectado no organismo dela em junho de 2013. Em março de 2017, a paciente foi diagnosticada com leucemia, um tipo de câncer que afeta as células sanguíneas.

Em agosto daquele mesmo ano, ela recebeu o sangue de cordão umbilical de um doador que possui uma mutação genética capaz de impedir a infecção pelo HIV.

Em paralelo, os médicos também utilizaram sangue colhido de um familiar próximo da mulher.

A paciente foi acompanhada durante todo esse período e, três anos e um mês após passar pela terapia, ela decidiu abandonar o coquetel antirretroviral, o conjunto de remédios capaz de manter o vírus sob controle (embora não consiga eliminá-lo de fato do organismo).

Depois de 14 meses da interrupção na terapia medicamentosa, ela não apresenta nenhum sinal do HIV em exames de sangue.

Ainda não se sabe ao certo os mecanismos de funcionamento da nova abordagem. Especialistas especulam que o sangue do cordão umbilical carrega células-tronco com maior capacidade de adaptação, enquanto o sangue de um familiar próximo fornece células de defesa que conseguem aumentar a imunidade durante e após o procedimento.

Os casos anteriores

Antes do anúncio recente, os únicos dois indivíduos que foram curados do HIV foram Timothy Ray Brown (também conhecido como paciente de Berlim), em 2008, e Adam Castillejo (o paciente de Londres), em 2019.

Brown viveu 12 anos sem o vírus até morrer em 2020, por causa de um câncer.

Ambos receberam um transplante de medula óssea, a estrutura popularmente conhecida como “tutano” que fica no interior dos ossos e é responsável por fabricar as células sanguíneas (hemácias, leucócitos e plaquetas).

Nesses dois casos, os doadores de medula também carregavam aquela mutação genética que impede a infecção pelo HIV.

Após passarem pelo tratamento, tanto Brown quanto Castillejo experimentaram efeitos colaterais severos, como múltiplas infecções, perda de peso, queda de cabelo e uma espécie de “rejeição”, em que as células imunológicas passam a atacar o próprio organismo e promovem uma inflamação intensa.

A terceira paciente, na contramão, teve alta hospitalar 17 dias após receber o sangue do cordão umbilical e não apresentou os mesmos eventos adversos graves observados anteriormente.

É pra todo mundo?

Embora essas três experiências recentes indiquem um caminho promissor para curar a infecção pelo HIV, é preciso reforçar que os cientistas não veem o transplante de medula óssea, seja a partir de um doador adulto ou do cordão umbilical, como algo que vai beneficiar a grande maioria dos pacientes.

Considerados métodos arriscados e invasivos, ele só são testados em portadores de HIV que também foram diagnosticados com câncer, em que outras opções de tratamento não estão mais disponíveis.

Para ter ideia, antes de realizar o transplante com as células-tronco em si, os especialistas usam quimioterapia e radioterapia para destruir a medula óssea “original” do paciente.

Ainda nessa seara, o caso específico da mulher supostamente curada amplia um pouquinho mais as esperanças de beneficiar um número maior de portadores de HIV.

Isso porque o método de transplante de medula óssea utilizado nos pacientes de Londres e Berlim exige uma compatibilidade maior entre doador e receptor, como explicado mais acima. E a tal da mutação genética que impede a infecção pelo HIV foi encontrada em cerca de 20 mil doadores, sendo que a maioria deles tem descendência do Norte da Europa.

Já no caso do cordão umbilical, a exigência de compatibilidade é menor — com isso, seria possível utilizar esse material num número um pouco maior de pacientes de diferentes origens e ancestralidades.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 37,7 milhões de pessoas vivem com o HIV, sendo que dois terços delas (25,4 milhões) estão na África.

Só em 2020, 680 mil indivíduos morreram por causas relacionadas a essa infecção e 1,5 milhão de pessoas se infectaram com o vírus.

No Brasil, o Ministério da Saúde calcula que 694 mil pessoas estão em tratamento contra o HIV atualmente. Dessas, 45 mil iniciaram a terapia antirretroviral em 2021.

 

Por ANDRÉ BIERNATH

  • Da BBC News Brasil em São Paulo

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