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Guerra na Ucrânia pode impulsionar exploração de níquel no Brasil

Dono da terceira maior reserva de níquel do mundo, o Brasil pode despontar como alternativa de investimentos no setor, que vive um cenário de preços recordes e grandes incertezas após o início da guerra da Ucrânia.
O preço internacional do níquel chegou a bater no início de março US$ 100 mil (R$ 480 mil) por tonelada pela primeira vez na história, como reflexo do aumento do risco sobre a Rússia, que representa hoje 10% da produção global.
As negociações acabaram sendo interrompidas na bolsa de mercadorias de Londres, mas ainda assim, o metal fechou alguns pregões acima de US$ 48 mil (R$ 230 mil) por tonelada.
O conflito no Leste Europeu pegou o mercado em um momento já bem aquecido, com preços já pressionados pela elevada demanda por baterias para veículos elétricos e parques geradores de energia solar ou eólica.
Esse cenário já vinha beneficiando o Brasil com o aumento da receita de exportações e royalties e levou à retomada das operações de uma das maiores minas do país, na Bahia, que havia sido paralisada em 2015 e reabriu em 2019.
Arte HTML5/Folhagráfico/AFP https://arte.folha.uol.com.br/mercado/2022/03/15/a-corrida-pelo-niquel/ * Especialistas no setor acreditam que a escalada dos preços e o cenário de maior incerteza com relação ao futuro do fornecimento russo pode acelerar projetos de exploração do metal no país.
“A alta do preço vai favorecer a busca por jazidas, estudos geológicos mais aprofundados e portfólios de projetos que estão esperando momento mais adequado”, diz Aline Nunes, coordenadora de Assuntos Minerários do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração).
O Ibram levantou quatro grandes projetos de produção de níquel em andamento no país, com investimentos de US$ 1 bilhão (R$ 4,8 bilhões, pela cotação atual). São projetos aprovados antes da guerra, com cotações bem inferiores às atuais.
Em 2021, por exemplo, o preço médio do níquel foi US$ 18,5 mil (R$ 89 mil) por tonelada. Após o início da guerra e o pico do início do mês, o metal era negociado nesta sexta-feira (25) na casa dos US$ 37 mil por tonelada.
“O Brasil já vinha com esse contexto de ser um player importante, mesmo antes da guerra, e esse cenário geopolítico certamente cria um novo patamar de mercado”, diz Gilberto Calaes, assessor da diretoria de Geologia e Recursos Minerais da CPRM (Serviço Geológico do Brasil).
Segundo estimativa do USGS, o serviço geológico dos Estados Unidos, o Brasil tem reservas estimadas em 16 milhões de toneladas, atrás apenas de Indonésia e Austrália, com 21 milhões cada uma.
Mas está na oitava posição entre os maiores produtores, com 100 mil toneladas por ano em 2021. O número representa um crescimento de 50% em apenas dois anos, reflexo da retomada da mina Santa Rita, em Itagibá, a 400 quilômetros de Salvador.
A mina havia sido desmobilizada por causa da redução do preço do minério e voltou a operar já viabilizada pela demanda por baterias. Sua operadora, a Atlantic Nickel, é controlada pelo grupo britânico Appian Capital Advisory.
Após a compra do projeto, a empresa realizou novas pesquisas e já pensa em dobrar a vida útil da mina, que era prevista em dez anos. Procurada, a Atlantic Nickel não quis dar entrevista sobre as operações.
A prefeitura da cidade comemora o retorno da exploração local. “Para o município, é fundamental, mas essa retomada conseguiu ajudar a região toda”, diz o prefeito de Itagibá, Marquinhos (PCdoB).
Em 2021, Itagibá foi o 26º maior arrecadador de Cfem (contribuição financeira pela exploração mineral) do país, com R$ 27,4 milhões. Considerando apenas os municípios produtores de níquel, foi a maior arrecadadora, segundo a ANM (Agência Nacional de Mineração).
A cidade tem população estimada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 15,2 mil pessoas. Apenas a mina gera cerca de dois mil empregos, segundo o prefeito. Entre 2018 e 2021, a receita corrente do município quase dobrou, de R$ 44,5 milhões, já corrigido pelo IPCA, para R$ 81,4 milhões.
“O município hoje está repleto de obras provenientes desses recursos”, diz o prefeito.
A balança comercial brasileira também vem sentindo os efeitos da escalada do preço, combinado com aumento da produção de níquel. Em março, as exportações do metal somara US$ 31,6 milhões (R$ 151 milhões), quase o dobro dos US$ 17,9 milhões (R$ 86 milhões) exportados no mesmo período de 2020.
Em 2021, o país exportou US$ 237,2 milhões em minério de níquel e seus concentrados, mais de três vezes os US$ 77,7 milhões exportados no ano anterior.
Embora tenha maior parte de sua produção de níquel fora do país, o cenário favorece também a Vale, que é uma das maiores produtoras globais do metal desde que comprou a canadense Inco, em 2006. Em 2021, a empresa produziu 168 mil toneladas do metal.
“Níquel, cobre e cobalto estão iniciando um renascimento devido à transição global de energia de baixo carbono”, disse em teleconferência com analistas no fim de fevereiro a vice-presidente executiva de Metais Básicos da mineradora, Deshnee Naidoo.
“O aumento da demanda juntamente com a falta de oferta atrairá um interesse significativo por toda a indústria”, completou ela, que vê o consumo duplicar na próxima década com a popularização dos veículos elétricos.
A Vale já anunciou estudos para abrir o capital de suas operações de metais básicos, aproveitando as perspectivas de crescimento desse segmento. Na conferência de fevereiro, a companhia voltou a dizer, porém, que ainda não há nenhuma definição sobre o tema.

 

NICOLA PAMPLONA / (FOLHAPRESS)

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