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Expedição à maior cratera da América do Sul

Meteoro que caiu entre Goiás e Mato Grosso pode ter provocado maior extinção de vida na Terra há 250 milhões de anos (Foto: divulgação)
  • Meteoro que caiu entre Goiás e Mato Grosso pode ter provocado maior extinção de vida na Terra há 250 milhões de anos

  • Cientista e geólogo Ricardo Queiroz prepara estudos mais detalhados da região

  • ONG Guerreiros da Natureza vai visitar ministro Marcos Pontes e convidá-lo a conhecer a APA do Encantado


Por Silvio Soũls, especial para o Click News


O pesquisador geofísico e geólogo Ricardo Queiroz prepara expedição ao maior meteoro que caiu na América do Sul, que está localizado entre Goiás e Mato Grosso, na região da APA do Encantado. O fenômeno que aconteceu cerca 250 milhões de anos provocou a maior extinção de vida na Terra e teria formado 80 quilômetros de cânions do Rio Araguaia. A ação conta com participação do grupo Guerreiros da Natureza que também objetiva visitar a APA e atualizar relatório das condições do lugar, após grupo de invasores deixarem a área de preservação.

A expedição ao Domo de Araguainha deve durar ao menos 20 dias e tem objetivo de fazer novos levantamentos técnicos da cratera. Os ecologistas querem a transformação efetiva do lugar em um geoparque com a construção adequada de decks e passarelas para que visitantes e estudiosos possam frequentar o lugar. O grupo de 15 pessoas, formado por cientistas e ambientalistas, deve ficar acampado dentro da cratera durante a excursão.

Cientista e geólogo Ricardo Queiroz prepara estudos mais detalhados da região de Araguainha (Foto: divulgação)

Para Queiroz, é necessário iniciar estudos mais detalhados da estrutura, considerando a composição e as propriedades físicas da cratera. Ele explica que o domo é uma cicatriz deixada na superfície da Terra, causado por impacto de um meteoro antigo e que esse achado histórico deve ser preservado. “Vamos fazer observações diretas das rochas com investigação subterrânea. Temos equipamentos hoje capazes de explorar o lugar e causar o mínimo de impacto no meio ambiente,” conta.

O pesquisador entende que conhecer os geossítios, o seu valor e a sua vulnerabilidade é muito importante para garantir o avanço da pesquisa das geociências, a educação das populações e ainda treinar novos cientistas. “Sem se conhecer o que existe, não é possível prosseguir um trabalho responsável de conservação e de promoção deste importante patrimônio natural”,diz.

Segundo Queiroz, três a cinco novas crateras são descobertas no mundo a cada ano, e que há cerca de 10 crateras de impacto em toda a América do Sul, sendo ao menos sete delas localizadas no Brasil; Domo de Araguainha (GO-MT), Serra da Cangalha (TO), Vargeão (SC), São Miguel do Tapuio (PI), Colônia (SP), Cerro Jarau (RS) e Piratininga (SP). Outras duas crateras estão localizadas na Argentina (Campo Del Cielo e Rio Cuarto) e uma terceira no Chile (Monturaqui).

Medidas de Proteção

O espeleólogo Antônio Carlos Volpone, presidente interino da ONG Guerreiros da Natureza, acredita que é preciso fazer um trabalho de educação ambiental com os moradores da cidade de Araguainha para preservação da área. A cidade está localizada no centro da maior cratera causada pelo asteroide e na opinião do ambientalista, eles não sabem o valor histórico que tem a região. “O fato aconteceu antes mesmo de existir dinossauro na Terra, o choque gerou uma energia 28 milhões de vezes maior que a bomba atômica que destruiu Hiroshima, no Japão”, explica.

Em visita à casa do jornalista Batista Custódio (ex-editor-geral e fundador do Diário da Manhã), o cientista Ricardo Queiroz e representantes da ONG Guerreiros da Natureza debateram a melhor forma de realização da expedição. Batista Custódio passou orientações aos ambientalistas e comentou sobre a grande relevância de uma ação a ser realizada no Domo de Araguainha e também na APA do encantado. Segundo Batista, o movimento vai contribuir para adoção de medidas de proteção e preservação destes dois importantes patrimônios da humanidade.

Ambientalista Volpone e advogada Mônica Araújo unem forças para preservar a APA do Encantado e o Domo de Araguainha (Foto: Guerreiros da Natureza)

Na opinião da advogada ambientalista, Mônica Araújo, que representa a ONG, sem medidas de proteção o local fica a mercê de pessoas mal intencionadas que objetivam apenas o lucro econômico. Ela aponta, conforme noticiado pela BBC News Brasil, que houve suposta comercialização de rochas retiradas da cratera. O fato tornou-se alvo de investigação do Ministério Público Federal (MPF) de Mato Grosso. “Há relatos de moradores que amostras foram retiradas do astroblema e estavam sendo expostas e comercializadas em galerias de artes de Paris, na França”, diz.

A BBC noticiou também que o MPF teria tentado recuperar os fósseis ou fazer um acordo com a França para devolução dos objetos, conforme os autos da investigação. No entanto, as apurações apontaram que a medida seria inviável, em razão da falta de legislação a respeito do Domo de Araguainha e as investigações foram arquivadas. “Precisamos de medidas jurídicas efetivas para proteger o lugar”, conta Mônica.

Maior extinção de vida na Terra

O Domo de Araguainha é a maior cratera (também chamado astroblema) da América do Sul, possivelmente a mais antiga, que ainda carece de estudos geológicos mais detalhados. O lugar cobre uma área aproximada de 1.300 quilômetros quadrados com diâmetro de 40 quilômetros.

Segundo o cientista Ricardo Queiroz, estudos apontam que o fenômeno pode ter provocado a maior extinção de vida na Terra, inclusive maior que extinção dos dinossauros. “A colisão teria destruído, imediatamente, tudo o que estava num raio de até 250 quilômetros e, posteriormente, gerado um rápido e fatal aquecimento global, causando tsunamis e terremotos. Milhões de seres vivos morreram”, comenta.

No período, a Terra era composta por répteis e anfíbios e queteriam sido extintas cerca de 90% das espécies de seres que habitavam o planeta. O desaparecimento provocado pelo meteoro de Araguainha foi mais intenso que o fenômeno que levou à extinção dos dinossauros, que ocorreu há 65 milhões de anos, também causado por um corpo celeste. Neste, foram extintas 60% das espécies de seres vivos da Terra.

Ricardo explica que a colisão em Araguainha provocou um sismo enorme, lançando para a atmosfera uma grande quantidade de metano, um gás com poderoso efeito de estufa, 60 vezes maior que o dióxido de carbono. Na época da colisão, todos os continentes estavam agrupados em um só, chamado Pangeia, que era circundado pelo oceano Phantalassa, atualmente o Pacífico. “A região atingida pelo asteroide era considerada uma plataforma marítima continental, conhecido com um mar raso”, explica.

Ao se chocar com a Terra, o asteroide adentrou dois quilômetros e meio de profundidade. Com isso, além de formar montanhas e relevos, trouxe à superfície minerais que estavam abaixo do solo como granito, turmalina, feldspato e hematita.


Guerreiros da Natureza espera sensibilização do ministro Marcos Pontes

A ONG Guerreiros da Natureza espera sensibilizar Marcos Pontes, ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), para que ele possa visitar o Domo de Araguainha e também a APA do Encantado. A entidade prepara um relatório com dados importantes e aguarda fazer parceria do órgão federal para apoio nos levantamentos técnicos durante expedição em data ainda a ser definida.

Os Guerreiros da Natureza organiza comitiva composta por deputados federais, estaduais e ambientalistas de diversos segmentos para levarem pessoalmente carta-convite ao ministro e fecharam parceria, objetivando cuidar melhor da cratera.

Iniciativa Regenera Brasil criada pelo ministro Marcos Pontes objetiva promover recuperação efetiva dos ecossistemas nativos brasileiros e pode ajudar na preservação da APA do Encantado (Foto: divulgação)

A entidade não governamental acredita que assim como a ida ao Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém, feita recentemente pelo titular Pontes, uma visita de um grupo técnico do ministério até esses dois achados históricos em Goiás, vai chamar atenção para investimentos sustentáveis na região de Araguainha e do Encantado. “Mesmo diante da pandemia, é preciso manter as atividades de proteção ao meio ambiente. A visita do ministro é muito importante para a expedição”, diz Volpone.

Na opinião do grupo, Marcos Pontes tem interesse real em cuidar da recuperação do meio ambiente no Brasil, como também do Cerrado Goiano. Pontes publicou a portaria MCTI nº 3.206/2020, “Iniciativa Regenera Brasil”, com objetivo de contribuir com a pesquisa científica, o desenvolvimento tecnológico e a inovação para a geração de diretrizes que promovam a recuperação efetiva dos ecossistemas nativos brasileiros.

Os ambientalistas acreditam que o ministro tem tido apreço pelo meio ambiente e poderá incluir o Domo de Araguainha, APA do Encantado e também a recuperação das nascentes do Rio Araguaia em portarias federais. “Há um comitê federal que pode cooperar para preservação do Domo de Araguianha e da APA do Encantado. A criação da portaria foi uma boa iniciativa do ministro astronauta Marcos Pontes, voltada à questão ambiental”, diz.


APA do Encantado preserva Domo de Araguainha


A Área de Preservação Ambiental do Encantado (APA) tem participação decisiva na preservação do Domo de Araguainha e do Rio Araguaia. O proprietário jornalista Batista Custódio tem se mostrado um defensor da vida que habita a região dos cânions do Araguaia e tem buscado elevar a pauta do meio ambiente e do Bioma Cerrado. Batista teve embates contra governos e iniciativas privadas que objetivavam destruir a região, principalmente a construção de usina hidrelétrica.

No entanto, os interesses de alguns governos e também de iniciativas particulares em acabar com o local (e também com o Araguaia) têm pensado apenas em avanços econômicos, sem a devida preocupação em preservar a biodiversidade e a história. As investidas não param e são muitas as tentativas de construção de usina hidrelétrica, desmatamento para pasto, corte ilegal de madeira dentre outras ações de cunho exploratório e capitalista.

Diversas espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção são protegidas na área da APA do Encantado (Foto: Guerreiros da Natureza)

O caso mais recente é que a APA foi invadida por grileiros que desmataram o lugar para pastagem de gados. “A tarefa de cuidar da APA exige conscientização e vontade política de todas as esferas sociais envolvidas. Também é preciso prática no processo de operacionalização e desenvolvimento sustentável, mas  precisamos do apoio dos governos estadual e federal”, diz Volpone.

Outra luta encabeçada por Batista foi o duro discurso contra a Usina Hidrelétrica de Torixoréu que abarcaria os municípios Torixoréu (MT), Riberãozinho (MT), Ponte Branca, Mineiros (GO) e Doverlândia (GO). A usina iria alagar cerca de 120 quilômetros do rio Araguaia. Isso significa que toda a extensão dos cânions estaria hoje debaixo de água, sendo que naquele lugar foram identificados 29 sítios arqueológicos. Além de inundar as belezas naturais, parte de nossa história seria perdida, além de afetar o Domo de Araguainha.

Na época, em 2009, o Governo Federal estava empolgado com o crescimento econômico e construções de usinas, mas o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, se sensibilizou e entendeu que não era a ação correta a se fazer por causa do grande impacto ambiental que causaria.

Até o Ministério Público Federal (MPF) entende que aquela região tem valor científico e de pesquisa relevante.  Sendo que o licenciamento para empreendimento de usina hidrelétrica, segundo declaração do procurador à época, Everton Aguiar, tem possibilidade de responsabilização internacional da União por violação de normas internacionais de proteção da biodiversidade. Visto também que estudos científicos apontam que há uma espécie nova de boto encontrado na região, registrada em 2014, que pode desaparecer com os empreendimentos hidrelétricos.

O combate contra 52 dragas que exploravam o rio Araguaia, em meados de 2006, também foi iniciado pelo Batista Custódio e apoiado pela ONG Guerreiros da Natureza. As atividades de lavras estavam causando impactos ambientais como erosão e desmonte de rochas com acumulação de pilhas de cascalho que suprimiam a vegetação. A fiscalização feita pelos Guerreiros constatou diversas irregularidades na época, como barulho de motores que causavam estresses nos animais, o lançamento diário de mais de mil litros de óleo diesel e lubrificantes no rio que causam alta mortandade de peixes.

Segundo o cientista Ricardo Queiroz, a APA coopera com a proteção de diversas espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção, além da preservação de ecossistemas naturais e das características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, arqueológica, paleontológica e cultural. “O local abriga espécies raras típicas do Cerrado, além de compor um dos mais belos cenários às margens do Rio Araguaia, com praias, vales, cânions e cachoeiras”, conta.

A região é a maior área particular do mundo, exclusivamente reservada para a preservação do meio ambiente. Com quase 2.500, sendo que 1.800 alqueires são APA, e com 25 quilômetros banhados pelo Rio Araguaia, esse parque ecológico tem merecido tratamento especial de seu proprietário.


SAIBA MAIS

O Domo de Araguainha é a maior cratera de impacto da América do Sul que consiste em uma feição geomorfológica caracterizada por um núcleo central e dois anéis radiais localizados entre 10 e 20 km do local do impacto. É cortado pelo Rio Araguaia e está nas proximidades da APA do Encantado, se localiza na região sudeste do estado de Mato Grosso e sudoeste do estado de Goiás, cobrindo uma área de aproximadamente 130.000 ha, com um diâmetro de 40 km. Abrange parte dos municípios mato-grossenses de Alto Araguaia, Ponte Branca e Araguainha e os municípios goianos de Doverlândia, Mineiros e Santa Rita do Araguaia. O Astroblema é listado como o sítio 01 pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP) e caiu cerca de 250 milhões de anos e pode ter provocado a maior extinção de vida na Terra.

 

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