Entretenimento

Distante da vida pública, Belchior percorreu cidades e vivia praticamente escondido no interior do RS

Há pelo menos dez anos, cantor e compositor cearense perambulou por cidades gaúchas, onde foi hospedado em casas de amigos e fãs.

O cantor e compositor cearense Belchior estava distante dos palcos e da vida pública havia dez anos. Há quatro, ele vivia na cidade de Santa Cruz do Sul, a cerca de 120 km de Porto Alegre. Foi onde morreu na noite do último sábado (29), aos 70 anos de idade. O corpo foi sepultado na terça (2), em Fortaleza.

Com a esposa, a produtora cultural e também artista Edna Assunção de Araújo, de 50 anos, ele perambulou por pelo menos dez cidades do Rio Grande do Sul na última década. O G1 RS ouviu alguns dos anfitriões e reconta, abaixo, um pouco da passagem do artista pelo estado.

Desde 2009, Belchior e a companheira mudaram de endereço seguidas vezes. Eram praticamente nômades. O paradeiro dos dois no período é quase um quebra-cabeça.

Sem residência fixa, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes, conforme a famosa letra de “Apenas Um Rapaz Latino-Americano”, o músico era recebido em casas de amigos e fãs, sempre junto com a mulher. Geralmente, tinha as despesas pagas pelos anfitriões.

Além de Porto Alegre, o casal perambulou por Santa Vitória do Palmar, São Lourenço do Sul, Xangri-Lá, na praia de Atlântida Sul, Guaíba, Cachoeirinha, Jaguarão, Quaraí, Sobradinho e, por fim, Santa Cruz do Sul.

O trajeto de Belchior pelo Rio Grande do Sul e Uruguai (Foto: Arte/G1)O trajeto de Belchior pelo Rio Grande do Sul e Uruguai (Foto: Arte/G1)

O trajeto de Belchior pelo Rio Grande do Sul e Uruguai (Foto: Arte/G1)

Segundo casamento, dívidas e sumiço

O isolamento de Belchior começou bem antes de ele mudar-se para o Rio Grande do Sul. Para ficar com Edna, que conheceu em 2005, ele se separou da então mulher, Ângela Margareth, com quem tem dois filhos.

Foi a partir de 2007 que ele começou a se afastar da carreira e dos antigos amigos. Desmarcou shows e se distanciou de vez dos palcos.

Em 2009, o sumiço virou notícia. Todos comentavam que Belchior havia desaparecido. À época, o fato se tornou uma espécie de lenda da cultura brasileira, alimentou teorias e virou tema de campanhas e até piadas na internet.

A TV Globo descobriu dois carros que ele havia abandonado em São Paulo. Um deles ficou na garagem ao lado do imóvel alugado que ele usava como ateliê, na capital paulsta. Era um Mercedes Benz. O outro, um Sonata, só na época acumulava dívidas de mais R$ 18 mil por estar parado no estacionamento do aeroporto de Congonhas.

No mesmo mês, a reportagem localizou o cantor em uma pousada em San Gregorio de Polanco, pequena cidade no Uruguai. Belchior contou que estava compondo, traduzindo suas músicas para o espanhol e que pretendia lançar um disco com canções inéditas quando voltasse ao Brasil. No entanto, ele não quis falar da vida pessoal e nem sobre as dívidas cobradas dele no Brasil.

Foi nesse período que o músico passou três dias em São Lourenço do Sul, no Sul do Rio Grande do Sul. O então prefeito da cidade, José Nunes, lembra que foi surpreendido com a visita inesperada do ídolo, que bateu à porta de seu gabinete.

Então prefeito de São Lourenço do Sul fotografou Belchior na mesa de seu gabinete  (Foto: Zé Nunes/Arquivo pessoal)Então prefeito de São Lourenço do Sul fotografou Belchior na mesa de seu gabinete  (Foto: Zé Nunes/Arquivo pessoal)

Então prefeito de São Lourenço do Sul fotografou Belchior na mesa de seu gabinete (Foto: Zé Nunes/Arquivo pessoal)

“A recepcionista me disse: ‘prefeito, o seu Belchior está aqui e ele quer falar com o senhor’. Eu estava numa correria na hora, mas pedi que entrasse”, recorda. “Não sabia bem quem era pelo nome, até achei que era um músico da região, um gaiteiro. Quando abro a porta vejo quem? Ele mesmo. Me faltou ar na hora, fiquei sem reação”, diz.

Belchior estava com Edna e disse que procurava ajuda para sacar valores de uma conta do Banco do Brasil. Ele contou que havia estado em Santa Vitória do Palmar, mas não conseguiu retirar o dinheiro na agência da cidade. O motivo, porém, não ficou claro.

Com a ajuda do prefeito, o saque, em torno de R$ 20 mil, foi autorizado. Antes de partir, Belchior, a mulher e o político jantaram em um restaurante de frutos do mar à beira da Lagoa dos Patos.

“Eu acho que ele estava passando por dificuldades, sim. Não tinha onde ficar, não tinha dinheiro quando chegou, nada. Eu paguei as duas diárias de hotel e as refeições para o casal”, afirma.

Atencioso e gentil com os fãs que o reconheciam, o músico não parecia estar querendo se esconder, segundo o político.

Ele foi um querido, tirou foto com todo mundo. Ele só me pediu pra não cantar. Convidei para fazer um show, mas não teve jeito”.
Três anos depois, em 2012, o Fantástico mostrou uma nova reportagem sobre o cantor. Um hotel da cidade de Artigas, também no Uruguai, procurou a polícia para dizer que ele devia mais de R$ 30 mil em diárias e serviços.

Belchior e a mulher se hospedaram no local em julho de 2011. Segundo a gerente, o casal disse que passaria apenas 15 dias, mas ficou mais tempo. Os pagamentos foram feitos até maio de 2012, sempre em dinheiro.

A partir de então, Belchior e a mulher pararam de pagar as contas, alegando que as contas deles estava bloqueadas no Brasil. No começo de novembro do mesmo ano, o casal saiu do hotel e nunca mais voltou.

“Não sei como ele chegou a essa situação financeira. Se ele fizesse um show pagava essa pensão, por isso todo mundo ficou surpreso, e eu ainda mais. Parece que alguém o puxava para baixo”, comenta a fotógrafa gaúcha Dulce Helfer, amiga de Belchior há mais de 30 anos.

Belchior em um restaurante com a amiga Dulce Helfer (Foto: Dulce Helfer/Arquivo Pessoal)

Belchior em um restaurante com a amiga Dulce Helfer (Foto: Dulce Helfer/Arquivo Pessoal)

À época, Dulce tinha pouco contato com o músico, mas se pergunta como seria se pudesse aconselhá-lo nos momentos difíceis. “Era só uma questão de administrar. Ele tinha um estúdio em São Paulo, dois carros. Por que não vendeu para se reequilibrar? Eu teria dito pra ele botar tudo na mesa, vender o que desse e se estabilizar. Ele deixou de falar e ver os filhos, isso era triste”, lamenta.

Mais da vida no Rio Grande do Sul

Dois dias depois da exibição da reportagem sobre a dívida no hotel uruguaio, Belchior foi visto passeando com Edna em Porto Alegre. A imprensa registrou, mas ele não quis falar com ninguém.

Na época, o casal se hospedou inicialmente em um pequeno e simples hotel na Rua Fernando Machado, no Centro. Foi quando Edna procurou o jornalista Juremir Machado da Silva, um fã declarado de Belchior. A mulher disse que o marido estava na cidade e precisava de ajuda.

Segundo o jornalista, que é colunista de jornal e professor em Porto Alegre, Edna agia como se estivesse sendo seguida. Certo dia, chegou a se esconder atrás de uma árvore e observava com cuidado quem estava por perto antes de entrar nos lugares, porque não queria ser vista.

“Ela não queria que ele fosse reconhecido, embora fosse muito difícil vê-lo e não perceber quem era, com aquele bigode e tudo mais”, comenta Juremir. “Mas notei que ela tinha uma influência muito grande sobre ele”, recorda.

Belchior e Edna continuavam sem dinheiro. Em janeiro de 2013, foram hospedados na casa de conhecidos de Juremir, mas não demoraram a partir novamente.

“Eles não tinham nada. Andavam perambulando por aí, a esmo, até que alguém os encontrasse.”

Quem conviveu com o casal na época concorda que o comportamento dos dois era bem diferente, quase o oposto um do outro. “Ela vivia desconfiada, dizia que sentia muito medo. Ele, por outro lado, era muito tranquilo, mas me parecia muito dependente das decisões dela”, afirma a jornalista Vânia Lain, que também conheceu o casal na passagem por Porto Alegre.

Também no começo de 2013, o cantor foi acolhido por advogados na capital gaúcha. Eles o ajudaram com processos familiares, sem custos, mas que acabaram não sendo concluídos.

“Ele estava sem lugar para ficar, então levamos para nossa casa de praia em Atlântida Sul”, conta o advogado Samir Nassif, que trabalha com o pai, Aramis. Os dois, além de outros familiares, conviveram com Belchior por alguns meses. “Eles [Belchior e Edna] deixavam a casa sempre muito limpa”, lembra, sobre os cuidados do casal.

Belchior em um show em Porto Alegre, em foto clicada pela amiga Dulce Helfer (Foto: Dulce Helfer/Arquivo Pessoal)Belchior em um show em Porto Alegre, em foto clicada pela amiga Dulce Helfer (Foto: Dulce Helfer/Arquivo Pessoal)

Belchior em um show em Porto Alegre, em foto clicada pela amiga Dulce Helfer (Foto: Dulce Helfer/Arquivo Pessoal)

“Num fim de semana, eu entrei em contato com um tio. Disse para ele quem estava na casa, ele ficou enlouquecido! Foi lá com um CD para autografar… Acabou levando eles para o sítio da família quando a casa [de praia] precisava ser desocupada”, relata Samir.

O sítio fica em Guaíba, na Região Metropolitana. Por lá, Belchior e Edna também passaram alguns meses. A convivência com Jorge Cabral, tio de Samir, vai render até um livro, como ele planeja. São muitas histórias do período em que passaram juntos já transformadas em textos. Ele conta que já tem 200 páginas escritas.

Jorge já tem 200 páginas escritas e pretende transformar em livro sobre Belchior (Foto: Jorge Cabral/Arquivo pessoal)Jorge já tem 200 páginas escritas e pretende transformar em livro sobre Belchior (Foto: Jorge Cabral/Arquivo pessoal)

Jorge já tem 200 páginas escritas e pretende transformar em livro sobre Belchior (Foto: Jorge Cabral/Arquivo pessoal)

“Conversei com familiares e achei que era o momento oportuno, mas não quero me valer da morte para o livro”, ressalta. “Eu vinha escrevendo há muito tempo (…) É sobre a importância que ele teve nesses quatro, cinco meses que esteve na minha vida, uma pessoa que compartilhou de momentos com a minha família, e as histórias que ele contou. Não é uma biografia, mas vai ajudar o biógrafo a ter elementos para visualizar o que aconteceu com ele nesse período da reclusão”, diz.

“Ele estava vivendo uma vida mais do que normal, tranquilo, não havia tristeza. Era um prêmio ter ele na minha casa”.

Tanto Jorge como Samir lembram da vida reservada do casal. Quando Belchior e Edna foram ao escritório dos Nassif, pediram para entrar pela garagem. “Pediram até para apagar imagens de câmeras de segurança”, recorda o sobrinho.

Depois do período no sítio, Belchior e a esposa foram deixados pelo próprio Jorge na União Brasileira de Compositores em Porto Alegre. De lá, eles partiram para o último destino: Santa Cruz do Sul.

A vida em Santa Cruz do Sul

A morte do trovador cearense comoveu os fãs em todo o Brasil, mas surpreendeu principalmente os moradores do município de cerca de 125 mil habitantes, situado no Vale do Rio Pardo, onde ele viveu seus últimos dias. Somente lá eles estiveram em quatro casas. A condição para recebê-los era apenas uma: não comentar nada sobre o ilustre hóspede. Eles queriam se manter reservados.

“Ele morou um tempo comigo e não saiu mais daqui. Um dia recebi uma visita familiar muito grande e levei ele para outro local, porque minha casa não comportava todo mundo. Aí foi assim, ele foi ficando de casa em casa, fazendo um rodízio com amigos. Ele gostava muito daqui, é uma cidade mais pacata”, conta o radialista Dogival Duarte, o primeiro anfitrião de Belchior na cidade, um fã que se tornou amigo do músico.

Nem vizinhos sabiam da presença do famoso morador da casa de dois andares localizada no bairro Santo Inácio, uma área residencial de classe média alta. “Eu não sabia de nada, não conhecia ele, não tinha ideia nenhuma. Ele era super discreto”, relata Aline Bohrer, que mora perto do casarão.

Casa onde o cantor Belchior morava em Santa Cruz do Sul, no interior do Rio Grande do Sul (Foto: Muriel Porfiro/RBS TV)

Casa onde o cantor Belchior morava em Santa Cruz do Sul, no interior do Rio Grande do Sul (Foto: Muriel Porfiro/RBS TV)

A moradia foi cedida por um amigo de Dogival, já que Belchior e Edna não tinham condições de pagar um aluguel. “Todo mundo sabe que ele tinha dificuldades financeiras”, lembra a estudante Marina Trindade. Os pais dela, o professor de filosofia Ubiratan Trindade, 56 anos, e a empresária Ingrid Trindade, 52 anos, receberam o casal logo após os dois deixarem a residência de Dogival.

“A gente tinha medo que a polícia descobrisse que ele estava na minha casa. Ele acabou ficando na minha casa por um mês, e dois meses no sítio do meu pai”, conta a jovem, em referência à chácara no interior de Sobradinho, onde Belchior permaneceu por poucos meses, antes de voltar de vez para Santa Cruz do Sul.

Na cidade, o cantor tinha amigos, mas vivia de forma reclusa. Quase não saía na rua. Passava horas escrevendo, lendo e pintando, mas longe de qualquer atividade remunerada.

“Ele passava de casa em casa assim. É complicado, né? A gente gostaria que ele teria ficado mais tempo com a gente, mas a Edna era uma pessoa bem complicada de lidar. Ela não deixava que as pessoas chegassem perto. Ele sairia na rua tranquilo, tiraria foto contigo, mas ela sentia muito medo que alguém fosse ali e tirasse ele dela”, observa Marina.

Belchior tinha hábitos saudáveis. Cuidava da alimentação, não comia carne vermelha e costumava nadar na piscina da residência. Segundo amigos, não aparentava estar doente. A companheira relatou à polícia que ele não fazia uso de medicamentos. Aliás, nem tinha remédios em casa.

“Ele estava bastante magro, mas estava super bem, animado, faceiro. Conversávamos sobre literatura, sobre arte, sobre o país, o que estava rolando por aí e tal”, diz Dogival.

A amiga Dulce acrescenta que Belchior já pensava em morar no Rio Grande do Sul quando foi ao país vizinho. “Ele morava em São Paulo quando foi para o Uruguai com a Edna. Mas uns cinco anos atrás ele me ligou e disse que queria largar tudo e morar aqui em Porto Alegre. Acho que inclusive ficou magoado comigo porque eu achava uma grande besteira ele fazer isso. Acho que foi ótimo que o Dogival tenha estendido a mão pra ele”, considera.

Para a fotógrafa, o artista levou à risca as letras que um dia escreveu.

Parece que nesse fim ele voltou ao início de carreira, quando era um rapaz sem dinheiro no banco. Chegou uma hora que ele não conseguia se equilibrar. De certa forma até entendo, porque ele gostava de frequentar bons restaurantes, comer salmão e tomar um bom vinho. Manter esse padrão de vida é difícil”.

Morte

O resultado da necropsia ainda não foi concluído, mas a delegada Raquel Schneider informou que a morte de Belchior ocorreu em razão do rompimento da artéria aorta. Ela falou com o médico do Instituto Médico Legal (IML) da cidade de Cachoeira do Sul, responsável pelo exame. Isso significa, segundo ela, que o cantor morreu por causas naturais.

Conforme a delegada, o músico morreu durante o sono, deitado no sofá da sala de estar. “Ele sentiu um pouco de frio, a esposa dele tapou ele, e foi se deitar”, conta a delegada. No meio da madrugada, a esposa sentiu falta de Belchior. “Ela acordou e notou que ele não veio e foi ver o que aconteceu. Aí que ela viu que ele estava desacordado e pediu ajuda”, completa.

Uma equipe do Samu esteve no local e constatou o óbito. Depois que o corpo foi retirado da casa em Santa Cruz do Sul, foi encaminhado para o IML em Cachoeira do Sul. Na sequência, foi levado a Venâncio Aires, onde foi embalsamado.

Já na madrugada de segunda-feira (1), o corpo de Belchior foi levado para Porto Alegre, de onde foi transportado de avião até o Ceará, para velório em Sobral, sua terra natal, e o sepultamento, realizado nesta terça (2), em Fortaleza.

Fãs lotaram teatro onde foi sendo velado o corpo do cantor Belchior em Sobral, sua cidade natal (Foto: Dalwton Moura/Divulgação)

Fãs lotaram teatro onde foi sendo velado o corpo do cantor Belchior em Sobral, sua cidade natal (Foto: Dalwton Moura/Divulgação)

Mulher de Belchior, Edna, e familiares no enterro do cantor em Fortaleza  (Foto: Helene Santos/Diário do Nordeste)

Mulher de Belchior, Edna, e familiares no enterro do cantor em Fortaleza (Foto: Helene Santos/Diário do Nordeste

Do G1

Deixe uma resposta