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Campos Neto prevê pico de inflação no Brasil entre abril e maio

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse nesta sexta-feira (11) que o pico de inflação no Brasil deve ocorrer em abril ou maio. As projeções anteriores indicavam o ápice em dezembro de 2021 ou janeiro deste ano.
Em evento da Esfera Brasil sobre política monetária, Campos Neto apontou como motivos para a revisão da estimativa o aumento no preço do petróleo -cotado acima de US$ 90- e a quebra de safra -com seca no Sul e excesso de chuva em partes do Sudeste, do Nordeste e do Centro-Oeste.
O presidente do BC reconheceu que fatores internos se somaram ao choque de inflação global, mas avaliou que o Brasil saiu na frente no combate à pressão inflacionária comparado a outros países com a elevação dos juros. Segundo ele, o BC vai usar todas as ferramentas para trazer inflação no horizonte relevante para a meta.
Em 2021, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acumulou variação de 10,06%. O alvo central da meta do ano passado era de 3,75%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, podendo chegar até a máxima de 5,25%.
“A gente entendia que ia ter um elemento mais persistente. É verdade que a memória inflacionária do Brasil faz com que a reação do BC seja um pouco diferente. Mas a gente acha que está mais acelerado no ciclo de aperto, vai depender de como isso se comporta no mundo desenvolvido, mais específico nos Estados Unidos”, afirmou Campos Neto.
Nesta quarta-feira (9), o IPCA de janeiro fechou, no acumulado de 12 meses, em 10,38%. A inflação perseguida pelo BC em 2022 é de 3,50%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo, podendo chegar a 5%. A alta prevista pela autoridade monetária já é de 5,4%.
Para reagir à alta da inflação, o BC tem elevado a taxa básica de juros, a Selic. Em março do ano passado, ela estava em 2% ao ano, menor patamar desde a criação do Copom (Comitê de Política Monetária), em 1996.
Na semana passada, no dia 2, o Copom elevou a taxa básica de juros de 9,25% para 10,75% ao ano. Desde julho de 2017, a taxa Selic estava abaixo dos dois dígitos, período em que foi reduzida diante de uma inflação em queda e uma atividade econômica praticamente estagnada.
O BC também sinalizou, em ata, que o ciclo de aperto iniciado em março do ano passado não chegou ao fim, diante de uma inflação ainda resistente e que ameaça estourar a meta pelo segundo ano seguido.
A avaliação de Campos Neto difere de diagnósticos do governo Jair Bolsonaro (PL). Reportagem do jornal Folha de S.Paulo mostrou que há o temor de que haja um pico de inflação no terceiro trimestre de 2022, no auge da campanha eleitoral.
Com isso, esse risco de alta dos preços deflagrou a decisão do presidente de patrocinar a PEC (proposta de emenda à Constituição) que vai permitir reduzir tributos sobre combustíveis.
A avaliação nos bastidores é que novos aumentos nos preços de combustíveis podem prejudicar a candidatura de Bolsonaro, que está atrás de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas eleitorais.
Interlocutores do governo ouvidos pela reportagem enumeram fatores como perspectiva de aumento do preço do petróleo, quebra de safra de alimentos e até disputas geopolíticas como motivações para o chefe do Executivo querer baixar na marra os preços de gasolina, diesel, etanol, gás e energia elétrica.
Esse cenário de flexibilização fiscal preocupa o BC. A ata do Copom desta semana mandou recados ao governo e ao Congresso.
De acordo com a autoridade monetária, “mesmo políticas fiscais que tenham efeitos baixistas sobre a inflação no curto prazo podem causar deterioração nos prêmios de risco” e levar ao “aumento das expectativas de inflação e, consequentemente, um efeito altista na inflação prospectiva”.
Já nesta sexta-feira, Campo Neto disse também que incertezas fiscais impactam a parte longa da curva de inflação e referiu-se indiretamente à PEC dos combustíveis, projeto defendido por parte do governo para reduzir alíquotas de tributos que incidem sobre combustíveis e gás.
Segundo o presidente do BC, a adoção de medidas para reduzir os preços de produtos no curto prazo não geram efeito estrutural sobre a inflação, reforçando o posicionamento apresentado na ata do Copom.
“Medidas de curto prazo que tenham efeito sobre os preços no curto prazo não têm efeito estrutural na inflação, não geram otimização no ciclo de política monetária”, afirmou Campos Neto.
André Braz, coordenador dos índices de preços do FGV Ibre, classifica a tarefa do BC no cenário atual como “árdua” e “ingrata”. “A gente perdeu a âncora fiscal. A responsabilidade para levar essa inflação para a meta não é só da política monetária. A política fiscal também tem de fazer a sua parte. Uma política fiscal mal feita implica em mais inflação”, afirmou à reportagem.
Segundo o especialista, um cenário de juros altos normalmente seria atrativo aos investidores. No entanto, não é o que tem acontecido devido ao cenário de incerteza.
“A gente acaba não atraindo investidores por conta da incerteza, que foi trazida ou ampliada pela forma em que o governo tem conduzido a sua política fiscal, sem transparência e gastando mais sem apresentar uma fonte de recursos em contrapartida.”
Braz diz que esse panorama sobrecarrega a política monetária porque mantém a moeda brasileira desvalorizada. “Esse é um caminho para inflação que vem tanto pelo aumento das exportações e desabastecimento do mercado doméstico, quanto pela obrigação de comprar produtos mais caros”, explica.
No evento desta sexta, o presidente do BC disse ainda que a aceleração da inflação global está muito mais vinculada à demanda do que a problemas de oferta decorrentes da pandemia de Covid-19.
“Quem acreditou que inflação era um tema de oferta está revendo os conceitos”, disse. A inflação crescente em países emergentes, como Chile e Colômbia, nas últimas semanas surpreendeu, segundo ele.
Consultor e ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman disse à reportagem que concorda com a estimativa feita por Campos Neto, mas destaca que a inflação não voltará ao centro da meta neste ano.
“A gente imagina que a inflação não vá permanecer nesse patamar atual, mas também não vai ficar na meta. O próprio Banco Central admitiu isso na última ata do Copom, em que falou que a projeção do cenário de referência deles era 5,4%, com balanço de riscos apontando para algo mais alto”, disse.
De acordo com Schwartsman, a inflação seguirá na casa dos 10% ao longo dos primeiros meses deste ano, para, logo depois, começar a cair. “A economia deve desacelerar ainda mais, isso deve colaborar no sentido de derrubar a inflação.”
“O desenho geral é esse mesmo, com a inflação na taxa de 12 meses só caindo de uma maneira mais visível na segunda metade do ano, para fechar em torno de 5,5%”, afirmou o consultor.
O coordenador dos índices de preços do FGV Ibre lembra também que, a partir de maio, será cobrada uma tarifa sobre a energia elétrica menos onerosa. Além disso, André Braz destaca que o BC contará com a ajuda de um efeito estatístico para cumprir a expectativa quanto ao pico de inflação, visto que as maiores taxas de inflação de 2021 ficaram concentradas no segundo semestre.

 

NATHALIA GARCIA / (FOLHAPRESS)

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