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Ataque russo inicia incêndio na maior usina nuclear da Europa, diz Ucrânia

Iluminador é lançado sobre estacionamento da usina nuclear de Zaporíjia - Reprodução

Kiev fala de risco dez vezes pior que o de Tchernóbil; níveis de radiação se mantêm dentro do normal, segundo serviço de emergência

Um ataque de forças russas para tentar tomar a usina nuclear de Zaporíjia, a maior da Europa, iniciou um incêndio na unidade na madrugada desta sexta (4), fim da noite de quinta no Brasil.

Segundo a agência de notícias russa RIA-Novosti, o chanceler ucraniano, Dmitro Kuleba, pediu para o ataque ser interrompido sob risco de criar uma explosão com impacto potencialmente dez vezes maior do que o do acidente na usina nuclear de Tchernóbil, ocorrido na Ucrânia ainda soviética em 1986.

A direção da usina disse à agência que não havia risco imediato de contaminação nuclear. O Serviço de Emergência da Ucrânia informou depois que as condições de radiação e do incêndio na instalação estavam “dentro dos limites normais”.

O reator que explodiu há 35 anos tinha sete vezes menos capacidade de produção energética do que os seis combinados da usina sob ataque, mas isso não serve necessariamente para fazer uma comparação de potencial em caso de desastre.

As informações iniciais são de que o incêndio teria começado em um prédio do lado de fora da usina.

Imagens de sistemas de segurança ainda não permitem estabelecer se o fogo visível em tela ocorre em algum ponto sensível, capaz de liberar radiação ou, pior, levar ao derretimento ou explosão do núcleo de algum de seus reatores.

Uma coisa é certa, contudo: instalações nucleares não combinam com tiroteios, e as imagens claramente mostram rastros de disparos de armas de grande calibre contra a instalação. E um vídeo divulgado pelo jornal Novaia Gazeta, de Moscou, mostra iluminadores sendo lançados contra a usina —sugerindo um ataque de soldados.

Segundo a mesma RIA-Novosti, o diretor da usina disse que não há sinais de aumento na radiação no local até aqui.

Os russos, entrando em seu nono dia de invasão da Ucrânia, vinham cercando Zaporíjia havia dois dias. O prefeito da cidade ucraniana que abriga a usina, Energodar, havia dito no fim da tarde de quinta que havia uma grande concentração de soldados de Moscou rumo à região.

Desde a terça (1º), funcionários da usina e moradores haviam fechado o acesso do local a blindados russos, que deram meia-volta. Não é a primeira usina nuclear que se vê envolvida em combates nessa guerra.

Já no segundo dia da operação, na sexta-feira passada (25), os russos começaram a combater na região de Tchernóbil e tomaram o local no fim de semana. Ali a usina segue em operação para manter o controle sobre o reator que explodiu em 1986 sob um sarcófago de chumbo, que segura as emissões radioativas.

Segundo especialistas militares russos, o temor dos invasores era de alguma ação de sabotadores para atacar os invasores ou fazê-los culpados por um eventual vazamento radioativo. Ao fim, apenas a agitação do solo contaminado levou a um aumento temporário dos níveis de radiação do local.

Agora é diferente. Zaporíjia, construída entre 1985 e 1989, é o maior complexo do tipo na Europa. Tem seis reatores do tipo VVER, modelos bastante mais seguros do que os RMBK usados em Tchernóbil. Mas não é desenhado para receber tiros ou bombas.

Cerca de 25% da energia ucraniana é fornecida pela usina, o que também a torna um ativo central para qualquer força invasora ou defensora.

Apesar do tom alarmista de Kuleba, ainda não é possível determinar se o fogo visto em imagens coloca a usina de fato em risco de explosão. Ela, inclusive, teoricamente deveria ser desligada assim que um incidente desses ocorresse.

Segundo sua direção disse à RIA-Novosti, o incêndio foi num prédio de treinamento, afastado da área de risco nuclear, e os protocolos de segurança foram acionados.

O Ministério da Defesa russo vinha dizendo, nesses dias antes do ataque, que buscava controlar os ativos nucleares ucranianos para evitar o risco de acidentes. Há quatro usinas nucleares no país invadido.

Questionada, a Agência Internacional de Energia Atômica, que passara o dia fazendo alertas sobre os riscos da guerra em região tão sensível, disse apenas que está a par do problema e pediu informações a Kiev. Seu diretor, o argentino Rafael Grossi, havia sugerido que técnicos da agência ligada à ONU poderiam operar de forma neutra o lugar.

Logo após as primeiras notícias do incêndio em Zaporíjia, o presidente americano Joe Biden falou com Volodimir Zelenski para, segundo comunicado da Casa Branca, receber atualizações sobre a situação na usina. Depois do ataque, o ucraniano acusou a Rússia de querer “repetir” Tchernóbil e de recorrer ao “terror nuclear”.

A memória coletiva ucraniana sobre Tchernóbil é outro ponto. O desastre mostrou vários aspectos da degradação administrativa da União Soviética, que acabaria cinco anos depois. Isso é bem mostrado na premiada série de TV “Chernóbil”.

Maior tragédia nuclear civil ao lado da ocorrida em Fukushima, no Japão, em 2011, Tchernóbil matou para as contas russas 28 pessoas e talvez 14 mais indiretamente. A ONU fala em cerca de cem, e ativistas contrários à energia atômica especulam até 4.000 vítimas da contaminação. Ela se espalhou em forma de nuvem por toda a Europa, gerando pânico internacional e obrigando os soviéticos a admitir a extensão do problema.

 

IGOR GIELOW / FOLHAPRESS

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