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Após mandar tropas para a Ucrânia, Rússia diz que está pronta para negociar

Tanque em rua de Donestk após o anúncio do reconhecimento russo da área rebelde - Alexander Ermotchenko/Reuters

Em posição de força, que depende da extensão de sua ação no Donbass, Kremlin diz que falará com os EUA

Um dia após chacoalhar o mundo com o reconhecimento das autoproclamadas repúblicas russas étnicas no leste da Ucrânia e o envio de tropas à região, o governo de Vladimir Putin disse que está pronto para negociar com os Estados Unidos.

“Mesmo nesses momentos tão difíceis, nós dizemos: estamos prontos para negociações”, disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, no YouTube. Ela disse que seu chefe, o chanceler Serguei Lavrov, irá a Genebra discutir a crise com o secretário de Estado americano, Antony Blinken, na quinta (24).

Putin moveu uma peça vital na disputa em torno do desenho da segurança europeia na segunda (21), quando reconheceu as ditas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, lar para cerca de 4 milhões de pessoas, a maioria russa étnica, 800 mil delas com passaportes do vizinho maior. Alegou riscos de escalada das escaramuças dos últimos dias para uma ação militar que Kiev nega.

Com isso, e um discurso agressivo em que basicamente negou que a Ucrânia seja um Estado em si, ele colocou o Ocidente em xeque. Desde novembro, Putin tem concentrado tropas em exercícios militares em torno da Ucrânia —150 mil delas, pelo menos, segundo os EUA. Negou que irá invadir o país, mas após reconhecer os territórios rebeldes determinou que tropas russas o ocupem numa missão de “força de paz”.

É algo que ocorre em outros pontos, como no encrave separatista russo da Transdnístria (Moldova), uma relíquia do desmonte da União Soviética em 1991, e nas duas áreas étnicas russas que se tornaram autônomas após a guerra entre Moscou e a Geórgia em 2008, a Abkházia e a Ossétia do Sul.

Na prática, é o que pode acontecer com o Donbass (leste ucraniano), desde 2014 autônomo na esteira da guerra civil fomentada pelo Kremlin após a anexação da península da Crimeia —que, além de historicamente território russo, é sede de sua valiosa Frota do Mar Negro.

“A Rússia pode intimidar Kiev a não mais agir militarmente no Donbass com a ação. Mas essa é praticamente a única vantagem do reconhecimento. As consequências negativas serão muitas e variadas”, diz Andrei Kortunov, diretor do prestigioso Conselho de Assuntos Internacionais Russo, próximo do Kremlin.

Os impactos para as relações entre Moscou e Kiev podem ser severos. O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, disse que o país pode cortar laços diplomáticos com os russos e convocou um alto diplomata na Rússia para consultas. O Ministério das Relações Exteriores de Putin, por sua vez, afirmou não querer romper a relação.

Zelenski, no entanto, minimizou a perspectiva de haver um conflito de larga escala, ao mesmo tempo em que disse estar pronto para introduzir lei marcial se isso acontecer.

Além das sanções inócuas contra as áreas rebeldes anunciadas pelo governo de Joe Biden nos EUA —que o Japão já declarou apoiar—, nesta madrugada a Organização para Segurança e Cooperação na Europa, ente do qual a Rússia faz parte, pediu a Moscou que rescinda os decretos de reconhecimento. Isso não irá acontecer.

O Reino Unido já anunciou sanções contra cinco bancos e sua secretária de Relações Exteriores, Liz Truss, disse que o país está preparado para ir muito mais longe se a Rússia mantiver a ofensiva.

Já a União Europeia estudará que medidas tomar ainda nesta terça (22). O xadrez é decidir quais medidas seriam adotadas, pois há membros do bloco mais próximos a Moscou que preferem algo mais limitado. Outros querem ver uma resposta ampla e dura, com base no que foi discutido nas últimas semanas.

A Itália, por exemplo, que depende do gás russo, defende que as sanções não impactem a importação de energia —Putin disse que manterá o fornecimento para mercados mundiais—, enquanto a Lituânia argumenta que elas não podem ser simbólicas e a Polônia subiu o tom, defendendo que elas se estendam ao presidente russo.

O premiê alemão, Olaf Scholz, por sua vez, congelou a certificação do gasoduto Nord Stream 2, que está pronto, mas sem poder operar devido à crise na Ucrânia. Uma reação militar também foi iniciada. A Hungria deve enviar tropas para sua fronteira, enquanto a Alemanha avalia deslocar mais militares para os membros da Otan que ficam no leste europeu.

Já Pequim, aliada da Rússia, emitiu um comunicado discreto, pedindo contenção a todos os envolvidos na confusão. A integrante da Otan Turquia, por sua vez, condenou a ação de Moscou, mas se opôs à imposição de sanções.

Até a manhã de terça (22), não havia sinais ostensivos da chegada de tropas a Donetsk ou Lugansk, embora isso possa acontecer a qualquer momento. Caminhões militares e tanques foram vistos nas duas capitais, mas é incerto se eles já estavam por lá e de quem são, dos rebeldes ou dos russos.

A encarregada de negócios na embaixada dos EUA na Ucrânia, Kristina Kvien, no entanto, afirmou já haver soldados russos uniformizados em Donbass. Um jornalista agência de notícias Reuters relatou ter ouvido seis explosões no centro de Donetsk, mas ainda não foi possível identificar a origem​.

Segundo Ivan Alexeiévitch, taxista que ganha a vida trabalhando em cidades da região fronteiriça e prefere não dizer seu sobrenome, nos últimos dias foram vistos vários comboios de caminhões do Exército rumando de Rostov-do-Don para a fronteira em Avilo-Uspenka, cerca de 95 km a noroeste da capital da província de Rostov.

“Ninguém sabe dizer do que se tratava”, afirmou. Por outro lado, no mesmo período ele mesmo viu diversos trens de carga trazendo blindados e tanques de volta de exercícios nas áreas fronteiriças. Rostov-do-Don é a sede do Distrito Militar Sul da Rússia. “Um dia eu parei no sinal da ferrovia e começaram a passar os tanques”, disse.

Para Kiev, Washington e Bruxelas, a chegada de tais forças de paz já significa uma invasão russa, mas isso é só retórica. A real ação que todos temem teria outra natureza, mirando a capital ucraniana.

Há um sinal a ser observado: até onde os russos irão se estabelecer, com bases militares, no Donbass. Ao longo de oito anos de disputa, há uma fronteira relativamente estabelecida de 430 km separando as repúblicas da Ucrânia ucraniana.

Putin espertamente não disse até onde irá, mas qualquer movimento além dessa chamada linha de contato irá configurar uma invasão de fato da Ucrânia. Os separatistas querem a restauração para si das antigas fronteiras das províncias de Donetsk e Lugansk, das quais ocupam algo menos do que a metade do território pré-guerra civil.

Um sinal foi dado por um ator lateral, o senador Andrei Klimov, do Comitê de Assuntos Estrangeiros do Conselho da Federação (Câmara alta do Parlamento). Ao canal Rússia 24, nesta madrugada (noite no Brasil), ele afirmou que o plano russo só inclui as fronteiras atuais.

“Claro, estamos falando dos territórios que estão dentro das fronteiras estabelecidas até aqui. O resto está além do arcabouço de atividade legal”, afirmou, dando um verniz legalista à decisão unilateral de Putin.

Esse ar de formalidade ganhou mais força nesta terça com a aprovação na Câmara baixa do Parlamento russo de tratados de amizade com as duas repúblicas separatistas, que podem abrir caminho para Moscou construir bases militares na região, adotar uma postura de defesa conjunta e aprofundar a integração econômica.

Apenas a realidade, contudo, dirá o que vai acontecer e como a Ucrânia reagirá. Se apenas transformar informalmente o Donbass numa região russa, sem anexação, Putin poderá prolongar indefinidamente o status disfuncional do Estado ucraniano, como fez com a Geórgia, prevenindo assim sua adesão à Otan e à União Europeia.

Se isso acontecer, será castigado por sanções que podem indispor seu regime com as elites russas, mas esta é uma questão para depois. Com os EUA e a Otan se negando a intervir militarmente, por temer uma guerra imprevisível, seu objetivo estratégico mais imediato estará conquistado.

POR IGOR GIELOW / FOLHAPRESS

Com Reuters

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